Amanhã é dia de faxina

Enxaqueca infernal. 

Começou no início da tarde.

Achei que passaria rápido, mas me enganei.

Calor insuportável em pleno mês de julho. 

Não era para estar frio?

Depois de um dia exaustivo, enfim, chego em casa.

Lembro que hoje é dia de reunião partidária aqui em casa – coisas do meu marido.

Estão todos na sala conversando sem parar. 

Ninguém se importa com a minha presença.

A minha cabeça parece que vai explodir.

Olho em volta está tudo bagunçado.

A dor persiste.

Não consigo dormir.

Levanto.

Acendo a luz.

Ficar quietinha no escuro não resolveu dessa vez.

Não tem jeito, me rendo ao salvador das que sofrem de enxaqueca – o remédio – no meu caso é o Cefaliv.

Tomo.

Dormir?

Não consigo.

Começo a escrever sem parar.

A dor?

Continua.

A reunião também.

Amanhã é dia da faxina.

O sono, enfim, chega…

07/07/2.010

Ele e ela

Por: Josaine Airoldi

Ele se foi.

Ela ficou e começou a perceber tudo o que tinha acontecido e se permitiu chorar.

Ele se foi.

Ela ficou, e tentando amenizar a dor que a dilacerava repetia: Eu fiz tudo que era possível por ele. 

Ele se foi.

Ela ficou e havia muitas coisas a serem feitas, mas pela primeira vez não sabia por onde começar. 

Ele se foi.

Ela ficou com a certeza que não havia tempo para lamentações.

Ele se foi.

Ela ficou com todos os fantasmas a assombrando.

Ele se foi. 

Elas, as horas, iam passando…

Ele se foi. 

Elas, as últimas palavras dele ficaram ecoando na sua mente: por que é tão cruel?

Ele se foi.

Ela ficou e pensou que, talvez, estivesse se referindo ao câncer que se alastrou sem dó nem piedade e persistiu em não abandoná-lo.

Ele se foi.

Ela ficou e enquanto tenta novamente se convencer que fez tudo o que poderia para ajudá-lo planeja o que fazer com todos aqueles equipamentos hospitalares, que estão ocupando a sua sala de estar.

Ele se foi.

Ela ficou com tudo o que restou: lembranças,  remorsos, angústias e incertezas…

Ele se foi.

Elas, as perguntas sem respostas ficaram:  

– Por que com ele?

– Por que comigo?

Ele se foi.

Ela ficou com a certeza que demonstrou gratidão e compaixão por sua dor.

Ele se foi. 

Ela ficou.

Amanhã será outro dia.

12/01/2.021

Feliz aniversário

Por: Josaine Airoldi

Criança gosta mesmo é de ganhar brinquedo.

Não venha com roupa maior para durar mais, que quando nos serve já está desbotada; ou com dinheiro para se colocar na poupança, o que geralmente não acontecia porque a mãe comprava mais roupas sempre dois ou três números maior do que realmente servia.

Criança quer ganhar brinquedo no dia do seu aniversário, no Natal, no dia das crianças ou em qualquer ocasião dedicada a ela.

Presente bom – entende-se brinquedo, foram o que eu ganhei de seu Medina – ou o Barão do Rio Branco – como costumávamos chamá-lo.

Ele sempre nos dava brinquedo no Natal. 

Certa vez ganhei a Maria Costureira, acho que era esse o nome, porque tinha duas roupinhas. 

A minha irmã ganhou a Emília, era de pano e não tinha roupinha reserva como a minha. 

Outro presente que ganhei foi um conjunto de xícaras com pires que ficavam numa bandeja linda vermelha. 

O seu Medina sabia o que criança gosta de ganhar de presente: brinquedo.

Certa vez ganhei uma sandália de aniversário.

A sandália ficou pequena. 

Tinha sido dada por uma amiga da família, a Célia.

Foi comprada numa espécie de mercado que vendia de tudo.

Era simples trocá-la por numeração maior. 

Fomos ao local. 

Encontrei a sandália, mas não me foi permitido ficar com ela.

Por quê?

Porque não tinha nenhuma que servisse na minha irmã, que por chorar copiosamente, fez com que meu pai decretasse: se não tem para uma não tem para nenhuma.

Nunca entendi a atitude do meu pai.

Por vários anos me perguntei por que fez isso.

Nunca aceite a indiferença da minha mãe diante de tal injustiça.

Nunca perdoei o egoísmo exacerbado da minha irmã. – Desde quando ela necessitava ter, além de tudo o que era meu, uma sandália igual a minha, que foi minha por muito pouco tempo. 

Além disso, essa via era sempre de mão única.

O contrário nunca aconteceria mesmo se fosse possível.

Mesmo criança eu tinha noção que isso era um absurdo.

– É só uma criança, não sabe o que está fazendo, pensará alguém. 

– Cada um se defende como pode, dirá outro.

Ela sempre era protegida, até pelos estranhos.

Se fosse um brinquedo como o que eu ganhei do rapaz do armazém – uma boneca de plástico – não seria necessário a troca e assim eu teria ficado com o meu presente de aniversário.

A menina que está na frente da vitrine em 1.981 está dizendo para adulta de 2.021 que talvez não tenha acontecido dessa maneira, a memória, às vezes, nos trai…

Então a imagem ganha som e escuto novamente que se não se não tem para uma não tem para nenhuma.

Ninguém tem o direito de tirar de mim o meu presente de aniversário.

Enfim, digo.

20/01/2.021

O último adeus

Por: Josaine Airoldi

Ao obter como resposta o barulho do fósforo sendo riscado na caixa na terceira vez que fez a mesma pergunta: “Quem está aí?”, minha mãe não teve dúvidas, pulou a janela do quarto.

Não tínhamos luz elétrica, por isso ficavam sempre: uma caixa de fósforos e uma vela na “guardinha” próximo a porta que era fechada por dentro por uma tramela.

Estava em pânico e nos deixou em pânico por muitos anos.

Diziam que era um tio que morreu dias depois que tinha vindo se despedir.

Eu me perguntava, então porque não respondeu. 

Será que não tinha uma maneira menos traumatizante para fazer isso e porque logo a minha mãe a pessoa escolhida que, além de estar sozinha estava grávida.

Não gostávamos de dormir na nossa casa, depois que ficou assombrada muito menos.

Gostávamos de dormir na casa da minha avó que ficava no mesmo pátio.

Minha avó tinha vindo com as minhas tias morar perto justamente para minha mãe não ficar sozinha durante as longas ausências do meu pai que, por ser caminhoneiro ficava longos períodos longe da família. 

Às vezes, minha mãe decretava que queria dormir na cama dela, que onde se viu. “Nós tínhamos casa” – sempre dizia.

Então, decretava que uma de nós tinha que lhe fazer companhia, mas naquela noite nós duas conseguimos nos livrarmos de tal incumbência.

12/04/2.020

Se eu tivesse uma mochila

Por: Josaine Airoldi

Com sete anos eu e a Nane ingressamos na 1ª série.

A escola  Thomaz era de madeira, tinha pouquíssimas salas e era pintada de azul, eu acho. 

Tudo era novo e assustador. 

Não melhorou com o passar do tempo. 

O que me confortava, de certa maneira, era saber que alguém viria nos buscar ao final da aula.

Certa vez, apesar da chuva torrencial, chegamos  a conclusão que seria uma boa ideia não esperarmos o adulto responsável naquele dia, pois estava demorando muito. 

Estávamos completamente encharcadas quando nos resgatou daquela situação.

– Por que não esperaram? – Jorge, o irmão da Nane, disse furioso e ao mesmo tempo percebendo que éramos capazes de irmos e virmos da escola sozinhas.

O material escolar que trazíamos conosco era igual e cabia numa pasta de papelão: um caderno, lápis, borracha e apontador. 

Tinha sido dada a ela pela minha mãe como pagamento de uma promessa que havia feito. 

Lamentei muito a mãe dela não ter feito nenhuma promessa, quando me mostrou a mochila de couro linda que havia ganhado, além de caderno novinho, pois o antigo havia se desmanchado. 

Isso se tornou pior quando recebi minha nova pasta – era de plástico, amarela e cheia de buracos feitos com caneta pela minha tia que tinha feito certamente quando a aula estava chata. “Vou fazer esses buraquinhos” – Ela deve ter pensado na época.

Não sei como foi parar embaixo do assoalho da casa da minha avó que a retirou de lá, lavou e colocou um elástico branco e me entregou. 

Minha avó sempre resolvia tudo com facilidade.

Como era plástico não estragava tão facilmente. – Alguém disse.

A partir daquele dia passei a odiar a escola e tudo o que ela significava.

Eu tinha muita vergonha daquela pasta Frankenstein.

Colocava a culpa no elástico, pois se fosse igual ao original, não chamaria tanta atenção.

Colocava a culpa na minha tia que não tinha se livrado direito da pasta, uma vez que não a queria mais.

Colocava a culpa na minha mãe, pois custava ter comprado uma mochila que nem a família da minha amiga fez.

Nada disso foi verbalizado, mas muito sentido, tanto que as imagens permanecem nítidas enquanto escrevo.

No ano seguinte ganhei uma mochila preta de couro, poderia colocar nas costas, se quisesse. Tinha uns desenhos de umas crianças estudando e uma frase embaixo: “Vamos estudar o Brasil precisa de nós.”

Quase todos da escola tinham uma igual, apesar disso não dei muita importância para aquela mochila, logo eu que sempre tive necessidade de ser igual aos outros, para não me sentir deslocada.

Tenho a impressão que tudo que desejo eu recebo, mas nunca recebo quando realmente desejo.

27/11/2.010

O carinho da mãe, o guaraná e a injeção

Por: Josaine Airoldi

Quando a minha mãe e a minha avó percebiam que as claras de ovos batidas colocadas nos meus pés não estavam fazendo efeio e não importava o quanto de guaraná “fora do gelo” eu tomasse, a febre alta não iria abaixar, elas começavam a cogitar a possibilidade de ser levada para consultar em Osório. 

Nesse momento chorava ainda mais. 

Não tanto pela dor terrível na garganta, mas pelo fato de saber que iria tomar injeção e ficando boa não teria mais o carinho e a atenção da minha mãe, que nessas ocasiões ficava em volta da cama aflita, medindo a minha febre de 10 em 10 minutos. 

Eu suplicava dizendo que estava melhor que não precisava, embora a febre me desmentisse.

Como meu pai estava sempre trabalhando longe dali, era chamado o seu Artur, que trabalhava como taxista e estava sempre a postos para atender os vizinhos.

A Doutora Maria Amelia sempre receitava a mesma coisa: Benzetacil, para o pavor de todas as crianças ainda existe.

Para garantir a eficácia do tratamento, a primeira dose de injeção era dada lá mesmo no consultório.

As demais eram aplicadas na casa de uma senhora que era enfermeira – Dona Noemia – para a qual eu tinha que ir todos os dias durante sete dias.

Embora criasse vários planos durante o trajeto para me livrar daquela situação não conseguia pôr nenhum em prática.

Depois de esterilizar a seringa de vidro, ela realizava com habilidade seu ofício; enquanto aquela bondosa senhora se tornava, por alguns segundos minha carrasca, eu o via escondido se divertindo com a minha situação. Tinha mais ou menos a minha idade e era sempre mandado para o quarto, quando eu chegava, mas nunca obedecia à mãe.

O que doia mais era ter que enfrentar tudo isso sozinha.

Cada vez que eu reclamava de alguma coisa para minha mãe eu ouvia que eu tinha que agradecer muito a Deus por estar viva, que ficou cuidando de mim meses e meses no Hospital Conceição, que eu tinha sido desenganada pelos médicos.

Depois de muito tempo estava eu e minha mãe novamente no mesmo hospital, em posições contrárias, porém dessa vez os médicos não estavam errados quanto ao diagnóstico.

                                                                                      15/08/2.000

Esqueceram de mim

Por: Josaine Airoldi

Fiquei sozinha olhando todos entrarem na igreja: os convidados – entre eles meu pai, minha mãe e minha irmã do meio, o noivo e enfim a noiva acompanhada pelo pai e pelas daminhas de honra.

Nenhuma das possibilidades seria possível. – Eu concluí.  

Se levasse o pelego e a bolsa com as fraldas não conseguiria levar a minha irmã. 

Se levasse a minha irmã teria que deixar o resto para trás. 

O que eu queria mesmo era deixar tudo e sair correndo.  

Estava olhando para o horizonte tentando entender o que estava acontecendo…

Será que ninguém lembrou que eu estava sozinha na praça com uma bebê de alguns meses? 

Ou então que uma bebê de alguns meses estava sozinha numa praça com uma criança de 10 anos?  

Eu estava nesse devaneio quando chega a tia Sirlei. 

Ela me olha sem entender o que eu estava fazendo ali, mas não perde muito tempo com perguntas.

Rapidamente troca a fralda de pano que estava bastante suja e me tira daquele suplício. 

Depois disso, tudo transcorreu bem. 

A festa estava boa. 

02/06/2.010

Meus fantasmas

Por: Josaine Airoldi

Chegou o momento: 

– Precisamos ir. – Eles sussurram.

– Talvez. – Digo a eles.

Já tivemos momentos como este. 

Não é novidade, eles afloram tão fortemente a ponto que eu deseje aprisioná-los. 

A aprisioná-los em outro lugar não é fácil.

– Porém, é preciso. – Eles insistem.

Meus fantasmas parecem mais lúcidos do que eu. 

Eles querem se desapegar de mim. 

Sou egoísta e não quero abandoná-los.

Receio encarar a realidade.

Descobrir-se é perigoso. 

Não sei se estou preparada para enfrentar-me. Preciso saber quem eu sou.

Parece simples, mas não é.

Permanecer no presente é desafiador para mim. 

Minha mente está sempre fugindo para o passado para me recriminar ou para o futuro para me incomodar e me frustrar. 

Às vezes tenho que me “puxar” para o presente.

Encontrar-se requer trabalho, dedicação e horas de aprendizado sobre si mesmo. 

É um ato narcisista extremo. 

Preciso ser egoísta neste momento.

Meus fantasmas estão me perturbando. 

Querem me abandonar. 

Não sei se estou preparada para seguir sem eles.

Minha mente fervilha enquanto os meus dedos trôpegos tropeçam entre um pensamento e outro. 

Tenho que ser rápida. 

Eles precisam ser guardados no papel. 

Estamos juntos a longo tempo. 

Não podem simplesmente desaparecer de um momento para o outro.

Necessito deles para me dizerem qual é o caminho.

Eles são a minha referência.

Não sei seguir vivendo sem eles…

Enfim, eles compreendem e dizem que vão permanecer mais um tempo comigo.

Respiro aliviada e agradecida…  

25/08/2.007

Halls

Por: Josaine Airoldi

Sempre nos oferecia Halls preto, que ardia muito na boca, então, colocávamos fora. 

Não sei por que nos oferecia. 

Também não sei porque aceitava se sabia que colocaria fora.

Ele era atencioso comigo, com minha irmã e com uma amiga que tínhamos.

Participava das nossas brincadeiras perguntando como estávamos e também sempre cumprimentava a nossa amiga e vizinha imaginária. 

Nesses momentos não éramos crianças, éramos donas de casa atarefadas com as lides domésticas. 

Tínhamos até outro nome.  

Ele era amigo do meu avô e se tornou namorado da minha tia e, de vez em quando, vinha visitá-la e por morar longe ficava o fim de semana, por isso dormia no sofá da sala da casa da minha avó.

Como o interesse da amada era pouco.

Só restava o bar que ficava próximo de onde morávamos.

Minha irmã adorava acompanhá-lo nessa empreitada, pois o rapaz lhe dava o que pedia.

Ela servia como anjo da guarda lhe guiando no caminho de volta. 

Lembrando dos dois juntos parecem a Marsha e o urso.

O namoro não durou. 

Ficaram com lembrança um disco do Júlio Iglesias presente dele para a namorada, que eu adorava ouvir, apesar de não entender o porquê de tantos lamentos e uma foto dos dois juntos no álbum de quinze anos da minha tia.

17/04/2.020

A consulta

Por: Josaine Airoldi

É só comprar outro – ele me diz.

Se eu tomasse a medicação indicada pararia de dar importância para coisas pequenas do dia a dia.

Ele fala sobre os componentes químicos do remédio como um aliado.

As pessoas vão continuar fazendo coisas que te desagradam, porém tu não darás essa dimensão, ou seja, não  tente mudar o outro, tenha outra visão sobre o acontecido.

-Se  o vinho que vocês compraram para tomarem juntos foi tomado sem a tua participação é só comprar outro. Simples assim.

– A casa está bagunçada? Contrate uma faxineira.

– Está cansada? Descanse!

– Aprenda a dar outra resposta a tudo que te incomoda.

Parece fácil ouvindo. 

Estou quase convencida que tem razão.

Mas, quando usa o exemplo, que se alguém escolhe trabalhar num ambiente sem janela, mas com ar–condicionado…

Olho em volta e percebo que está se referindo a própria situação, que é uma maneira de se convencer que fez a escolha certa.

Ele volta a falar do remédio como se fosse um velho amigo.

Minha mente viaja. 

Estou analisando o psiquiatra.

Conhecer o ser humano é uma dádiva e um tormento. 

Às vezes, se torna complicado a convivência com certas pessoas, pois se entende além do que é dito. 

Todos nós temos nosso calcanhar de Aquiles.

Será que para isso existe remédio?

22/01/2.020

As gurias bárbaras

Por: Josaine Airoldi

Elas fediam a xixi.

A casa inteira fedia a xixi.

Mesmo após o banho fediam a xixi.

Com o tempo Marlene ficou cada vez mais presente na minha casa. 

Foi para ela que minha avó pediu ajuda para cuidar dos animais que criava.

Foi para ela que meu pai contou como descobriu que a minha mãe estava grávida.

Sinceramente eu não tenho nada contra a Marlene, principalmente porque ela não fedia a xixi e me considerava inteligente. 

A minha rixa era com suas filhas que por mais que apanhassem não ficavam meninas educadas e sem cheiro de xixi.

De repente, aquela cena vem a minha mente agora:

Uma delas ocupando um espaço que era meu – o meu balanço. 

Não tinha o direito de usá-lo. 

Qualquer outra criança eu não me importava; porém ela ou a irmã dela eu não suportava que o usassem.

Tinha que agir logo e agi:

– Olha lá a tua mãe está chegando!

Ela correu para o portão, libertando-o de imediato.

Eu ganhei! 

A vitória logo perdeu o sentido. 

Ela ficou estagnada no portão. 

Era muito burra para compreender que eu havia a enganado.

Eu sempre tive um senso absurdo de responsabilidade sobre tudo e sobre todos.

Receava que aquela guria fosse atropelada caso não saísse daquele portão.

– É mentira a tua mãe não veio ainda! – Gritei.

– Sai dai! – Supliquei.

– Vem brincar no meu balanço! – Apelei.

A raiva ia aumentando enquanto eu me aproximava mais e mais do portão.

Depois de quase quarenta minutos o ônibus para e finalmente elas aparecem.

Ela saiu disparadamente em direção à parada.

Respiro de certa forma aliviada.

Agora a responsabilidade não é mais minha.

Eram duas quando nos conhecemos. 

Não tive nenhuma simpatia por elas. 

Piorou quando a família aumentou e nasceu o irmão. 

Eram três para eu cuidar quando a minha mãe resolvia fazer compras em Osório na companhia da mãe deles.

Numa tarde enquanto estou tentando acalmá-lo, sinto algo metálico nas minhas pernas. 

Por ciúme do irmão, a bárbara mais nova me atacou com o resto do que um dia foi um guarda-chuva.

Fiquei ajoelhada segurando o menino chorando com toda a força que eu tinha para não deixá-lo cair até que alguém viesse em nosso socorro.  

Eu descobri, mais tarde, o quanto poderia ser ainda mais cruel. 

Naquele momento não queria acreditar que eles estavam mortos, que eles haviam sido estrangulados e enterrados por pura maldade e inveja. 

Eles eram os meus pintinhos carijós. 

Ninguém tinha direito de tirá-los de mim. 

Não havia cascudo que aliviasse a minha dor.      

Era bastante comum Marlene enviar a mão embaixo daqueles cabelos sebosos que suas queridas e fedorentas filhas tinham e lhes aplicar uma punição. 

Certa vez me vinguei delas.

Estávamos em pleno inverno. 

As ruas não eram asfaltadas como até hoje não são e por isso alagam facilmente, então a Prefeitura jogava várias camadas de areia e enquanto a “patrola” não vinha para espalhá-la nós nos divertíamos naqueles imensos morros de areia.

O meu primo Almenir, que gostava de me defender – gosto de pensar assim – aprontou com a nossa ajuda – minha e da minha irmã, uma vingancinha saborosa.

– Todos tem que se enterrar na areia. Essa é a brincadeira. Anunciou, imponente de cima da areia. 

Imediatamente ficou definido por nós que as pessoas a terem o privilégio de iniciar a brincadeira eram elas.

Nós teríamos o trabalho de auxiliá-las nessa empreitada.

O que fizemos com muito prazer.

Vê-las soterradas na areia sem poder se mover e sendo atacadas por formigas foi muito divertido.

Quase aliviou toda a mágoa e raiva que eu sentia por elas.

É claro que nós não nos enterramos.

 Certa vez ao me dirigir para o caixa do supermercado percebi que talvez fosse a Clarice a operadora. 

Pensei em mudar de atendente, mas se fosse realmente ela perceberia a minha atitude. 

Tinha que ter certeza, por isso imediatamente olhei para o crachá e enfrentei a situação. 

Ela poderia não me reconhecer. 

– Não se lembra de mim?

– Claro! – Apesar de estar bem diferente.

– Depois de três filhos a gente muda bastante.

Sorri sem graça tentando disfarçar a inveja que senti daquela criatura.

Ser mãe era o que eu mais desejava e não estava obtendo muito sucesso. 

Não tive coragem para perguntar a respeito de Marlene, apesar de ser o único interesse que eu tinha em conversar com ela, uma vez que era inevitável. 

23/11/2.010

A culpa é do orégano

Por: Josaine Airoldi

Domingo à tarde tinha planejado sair.

Não fui. 

Ficou tarde. 

Tudo começou quando comecei a procurar o orégano que tinha certeza que estava num pote dentro de um armário. 

Não estava em nenhum pote ou armário da minha cozinha. 

Nessa empreitada começou-se a verificação de data de validade dos produtos sendo jogados fora os que já estavam vencidos, a limpeza de algumas áreas esquecidas no dia a dia…   

Não saí! Mas a cozinha ficou limpa e organizada.

Ao sentar exausta no sofá da sala me deparei com ele impassível e empoeirado pregado na parede, está sempre lá esperando que seja limpo, que seja colocado um dos ponteiros que caiu e que também sejam trocadas as pilhas que o fazem produzir seu indiferente tique-toque.

Qualquer dia mando arrumar – assim com todo o resto que precisa de conserto.

Aos poucos o meu corpo vai adormecendo e me aconchegar entre as almofadas parece o caminho natural a ser seguido.

Fui ensinada a fazer o que é certo. 

Fui ensinada a pensar sempre no bem estar dos outros. 

Fui ensinada a não dar opinião quando os adultos estavam conversando.

Sendo adulta não consigo decidir o que é realmente relevante para determinado momento. 

Às vezes, me proponho a não tomar decisão nenhuma.

Fico à deriva, como um barco sem rumo, pois não desejo remar.

Não desejo ir a lugar algum.

Não quero ser responsável por qualquer coisa que possa acontecer em decorrência da minha interferência ou pela minha alienação.  

Fico ao sabor das consequências da minha não ação.  

É uma maneira tosca de me rebelar contra aquilo que me aflige.

Às vezes, é mais cômodo culpar algo aleatório sobre o que dá errado ou não acontece como desejado do que encarar que sou responsável pelas minhas decisões ou pelas minhas não decisões.

Não sai num domingo à tarde como tinha planejado e queria, mas a culpa não foi minha, a culpa é do orégano.

05/01/2.020 

O retrato

Por: Josaine Airoldi

Olho o retrato. 

Nele há duas meninas.

Talvez, só exista nos retratos e nas lembranças distantes da infância a verdade.

Olho o retrato.

Lembrança de que somos irmãs e que fizemos o melhor que podíamos do que de nós resultamos. 

Olho o retrato.

30/06/2.010

O quatro olhos

Por: Josaine Airoldi

Lembrei-me hoje de uma brincadeira da época em que estudei na Escola Assis Brasil.

Veio à mente a frase: “sabe o quatro olho ele não percebeu que havia uma janela e foi com tudo nela”

Ele, quem mencionou esse fato era o Rogério.

Rogério era um garoto muito magro e muito alto para a idade e que desenhava muito bem.

O quatro olho em questão era nosso colega na oitava série.

Era extremamente tímido e ter que usar óculos não o ajudava em nada.

Eu me sentia estranha naquela escola e naquela turma.

Acho que por isso que nos identificamos e começamos por brincadeira a disputar o mesmo lugar.

Quem chegava primeiro sentava no lugar disputado.

Eu era mais alta que ele e dependia de transporte para chegar à aula, enquanto ele morava perto e por isso quase sempre chegava antes de mim.

Quando não conseguia algum êxito me perturbava a aula toda.

– “Da Frente”, dá licença não consigo enxergar daqui de trás.

Eu respondia qualquer coisa para que fosse possível continuarmos com nossa guerrinha particular.

Certa vez descobri que gostava de uma música do Roupa Nova: Um trem azul.

Não tive dúvidas, copie a letra numa folha de papel, escrevi uma mensagem simpática tipo. “Seja feliz” ou qualquer coisa assim e lhe entreguei.

Foi quando descobri que estava interessado numa menina da outra turma que eu achava muito feia, mas mesmo assim o incentivei para que se aproximasse dela.

Talvez, por causa do meu incentivo, criou coragem e durante um recreio qualquer disse que queria namorá-la .

Por certo tempo era comum vê-los juntos de mãos dadas no pátio da escola.

Fiquei profundamente triste vendo o quanto estava sofrendo porque ela tinha acabado o namoro.

Entendi, enfim o que eu não queria: ele gostava mesmo dela; e eu nunca deixaria de ser a “da frente”, simplesmente.

Atualmente, não usa mais óculos, talvez lentes de contato, como eu que tive que usá-la por detestar usar óculos de grau ou fez cirurgia.

Casou-se com uma menina bem bonitinha.

Descobri recentemente que fica extremamente bonito com roupas totalmente brancas que usa em sessões de umbanda numa casa que frequenta.

O tempo só lhe fez bem.

 09/11/2.010

EU… EU… EU… sou um GÊNIO

Por: Josaine Airoldi

Egocêntrico. Egoísta. Enfadonho. Esquisito. Estranho. Extremista…

Apesar dessas características espantosas reunidas na mesma personalidade ele foi a pessoa com quem mais fácil convivi. Não esperava nada dele e de mim não nada exigia. Acho que a própria presença lhe bastava.

Às vezes, era engraçado.

Não tomava nenhuma bebida gelada por causa da garganta – não se permitia ficar doente.

Às vezes, era enfadonho querendo ser culto.

Enquanto as pessoas comuns vão à praia ele contempla a orla marítima.

É comum pôr mostarda em lanches, ele só aceita pôr condimento a base de mostarda.

Era sempre extremamente desagradável falando o que pensava.

Ao me presentear no meu aniversário:

– Comprei uma caixa de bombons Lacta. Adoro chocolate e só compro dessa marca que é a melhor que qualquer outra. – Falou sem se importar com fato de eu ter recebido outra caixa de bombons de outra marca.

– Sorvete bom é flocos e só da Nestle. – comentou certa vez na fila do caixa do supermercado.

Enquanto expunha o seu ponto de vista olhei sem graça para o rapaz que estava atrás de nós na fila do supermercado com um pote de sorvete de banana de uma marca um pouco duvidosa.

Qualquer outro sabor não gosta, embora nunca tenha provado nenhum outro.

Fazia questão de lembrar que quando criança teve fimose e por isso tinha sido operado.

Às vezes, era tão ridículo que chegava a ser patético.

Quase morri de vergonha quando resolveu entrar numa vídeo locadora com o capacete na cabeça, parecia um verdadeiro lunático.

Suportaria qualquer coisa, mas não queria nem pensar que algum mal pudesse acontecer a sua mãe.

A mãe em questão era uma boa senhora, que tinha enorme orgulho do único filho cujo pai nunca reconheceu.

Fazia o que fosse preciso para ver o filho feliz, como qualquer boa mãe.

O menino se recusava a amadurecer apesar dos quase trinta anos.

Achava, provavelmente, que enquanto o padrasto o ignorasse e a mãe estivesse ali para protegê-lo não precisava crescer.

Não necessitava de mais ninguém, exceto a mãe, a sua grande paixão e a única razão de sua existência.

Hoje é o dia do seu aniversário.

Deve ser por isso que me lembrei dele e de sua eterna mania de não se tornar adulto.

14/10/2.010

Candidata a amiga

     Por: Josaine Airoldi

Ter uma amiga na turma em que eu estudava sempre foi um desejo meu.

Sempre que eu conseguia fazer amizade com alguma menina na turma acontecia o seguinte: eu passava e a candidata a melhor amiga era reprovada ou parava de estudar porque tinha engravidado do namorado ou iria embora para outra cidade…

Com a Vanderleia foi assim:

Por “convite” feito pelo professor de Matemática eu tive que assistir às aulas de recuperação terapêutica.

– Ela passou, mas seria interessante que frequentasse as aulas de Matemática para reforço. – disse aquele professor à minha mãe.

Eu tinha verdadeiro pavor daquele homem que não conseguia assimilar que eu não precisava passar mais tempo na sua presença.

Eu havia conseguido alcançar à média, mesmo que isso lhe contrariasse profundamente.

Se ele foi capaz deixar o filho da diretora da escola, após o período letivo o que não faria comigo – eu pensava sempre.

Como não conseguia compreender o horário das aulas, eu ia à escola no horário normal e ficava esperando as aulas de Matemática que, às vezes, eram os últimos períodos.

A pior parte foi quando meu pai resolveu nos levar para a colheita de cana numa chácara que pretendia vender.

– Eu não posso faltar à aula. – Explicava.

– Bobagem. Vamos todos. Vocês irão de Kombi com o Paulo.

O passeio foi muito bom.

O lugar era muito bonito.

Fazia jus ao nome: Figueira Grande.

Fizemos piquenique.

Conhecemos crianças que trabalhavam com foices e facões.

Conversei muito com a Patrícia que apesar de sempre frequentar a sua casa e comparecer as suas festas nunca fiz parte da sua turma.

No outro dia estava em pânico, com medo de ser reprovada.

Como chegava sempre cedo pude escorada no muro da escola copiar a matéria.

O professor não falou nada a respeito da minha ausência na aula anterior.

Até me chamou para resolver uma expressão numérica no quadro, quando percebeu que o Genésio não sabia resolvê-la.

Ainda estava tremendo quando ouvi que todos deveriam saber resolver a operação como eu sabia.

No dia da entrega de boletins encontrei Vanderleia convicta que tinha sido aprovada para a 5ª série e que a irmã tinha sido reprovada, porém aconteceu o contrário do que ela tinha previsto.

Sempre foi assim quando eu conseguia fazer amizade com alguma menina na turma acontecia o seguinte: eu passava e a candidata a melhor amiga era reprovada ou parava de estudar porque tinha engravidado do namorado ou iria embora para outra cidade…

Realmente, eu estava predestinada a ser um ser solitário.

04/12/2.010

As balas

         Por: Josaine Airoldi

Num dia enquanto tentava me equilibrar num ônibus lotado, tive uma sensação muito estranha.

Senti-me protegida sem ser tocada.

Olhei para cima havia um braço másculo, mas não consegui ver de quem era.

Isso só foi possível quando o dono do braço desceu na parada seguinte.

Estava ainda mais bonito e mais alto do que eu me lembrava.

Eu sabia que havia casado com uma garota que eu conhecia de vista e que o casamento não tinha dado certo.

O que fez com que eu sentisse pena dele e muita raiva dela; como ela pode traí-lo? – Eu pensei quando ouvi essa história.

Eu o conheci quando tinha meus sete ou oito anos.

Estava na primeira ou segunda série.

Ia sempre comprar balas após a aula num armazém perto da escola.

Que idade ele tinha nunca fiquei sabendo.

Sei que era mais velho que eu.

As balas a mais do que a minhas parcas moedinhas pagavam vinham um sorriso.

Ele sempre foi gentil comigo e acho que com todas as crianças que por ali passavam.

 Mas naquele dia ele não me atendeu, nem sempre ele estava ali.

Quem me atendeu foi o pai dele.

Antes eu não ter entrado ali naquele dia.

Também não me lembro do porquê de querer tomar Coca-Cola depois da aula.

Mas me recordo perfeitamente que rapidamente colocou a tampinha na garrafa do refrigerante, dizendo que eu não tinha dinheiro suficiente e guardou a garrafa novamente no freezer.

 O que faltava era muito pouco.

 O que não foi pouco foi a minha humilhação que senti vendo a garrafa sendo retirada das minhas mãos.

  Como senti falta do Paulo Ricardo naquele dia.

          26/11/2.010

Triângulo amoroso tupiniquim

Por: Josaine Airoldi

A história era para ser minha e do Moacir, mas o destino não quis. – disse certa vez Jussara.

Como contra o destino não há como lutar – assim alguns acreditam – tornou-se a história de Moacir e Jurema.

Jussara gostava do Moacir.

Moacir, talvez gostasse de Jussara.

Jurema também gostava do Moacir.

Enquanto Jussara acreditando que seria feliz para sempre com Moacir numa casinha que não fosse de sapê, Jurema anuncia que engravidou.

Talvez o desenlace desse folhetim fosse diferente se não houvesse a presença do filho nessa história.

O fato é que diante do acontecido, ao pai não restou alternativa – o casamento entre Jurema e Moacir era necessário e urgente – mesmo sabendo o quanto magoaria Jussara – a filha mais querida.

Tempos depois Jussara não suportando a desilusão bem longe dali foi morar e com outro se casou.

Assim tristes ficaram os três.

Cada um escondendo suas dores e decepções com frágeis máscaras.

Moacir na bebida encontrou acalento.

Jurema na mágoa mergulhou.

Jussara percebendo que nem sempre encontraria abrigo, naquele que escolheu para substitui Moacir, filho com ele nunca quis ter.

Sempre que esse assunto é trazido à tona, percebo o olhar distante dela, como tivesse tentando se convencer que não era para ser.

Quem de nós poderá saber?

29/04/2.020

Meu anjo

Por: Josaine Airoldi

De onde vem isso?

Sei lá tirei da minha cabeça.

Tantas coisas não ditas.

Tantas coisas ditas.

Tantas coisas ditas e não compreendidas.

Tantas coisas não ditas e compreendidas.

Meu anjo.

Tudo termina como começa.

30/06/2.010

O pai traz a Coca-Cola

Por: Josaine Airoldi

Domingo.

Almoço.

Convite.

Chegaram.

O pai traz a Coca-Cola.

E por alguns instantes representamos uma família.

30/06/2.010

Acabou

Por: Josaine Airoldi

Não era por amor.

Era por mim.

Não queria ficar sozinha naquele momento.

Não era amor.

Era necessidade de amparo.

Poderia ficar por compaixão.

Não me importava.

Eu precisava de alguém para compartilhar a tristeza.

Ele foi implacável.

– Não quero mais.

– Acabou.

– Tenho 40 anos.

– Preciso ser alguém.

– Tenho que ser alguém.

– Tem que ser longe de ti.

– Não sinto a tua falta quando estou sozinho.

Ele foi cruel o mais que pode.

Talvez para se fazer entender.

-Vou embora. – Disse por fim.

Foi.

26/06/2.010

Éramos felizes e sabíamos

Por: Josaine Airoldi

Ter sido criança na década de 80 é uma coisa muito bizarra quando comparamos aos dias atuais.

Não tínhamos muito, mas tudo que tínhamos era muito valorizado.

Os brinquedos eram latas de azeite e potes de margarina onde fazíamos comida, que consistia misturar areia com água.

Brincávamos até tarde na rua próximas a porta da cozinha para aproveitarmos a luz do lampião, reproduzindo os programas de televisão que conseguíamos ver de vez em quando.

Os desenhos animados eram politicamente incorretos.

Assistíamos no cinema Coimbra os filmes do Teixeirinha.

Às vezes, à noite íamos na casa da dona Luci enroladas em cobertores se estivesse muito frio olhar a novela das 8 horas. Apesar das indicações de censura: “Programa proibido para menores de 12 anos” – dizia uma voz – enquanto na tela da televisão havia um lembrete enorme.

Nos intervalos da novela víamos…

A Pepsi anunciando que era melhor que a Coca-Cola, mas só tomávamos um ou outro aos domingos e quando recebíamos visita, que vinham sem avisar, pois não havia como. Ter telefone em casa era um luxo para poucos.

Tinha também um gurizinho que não deixava os pais esquecerem de comprar uma Caloi para ele.  

Os anúncios diziam que as donas de casa poderiam escolher entre os eletrodomésticos da Walitta e da Arno.

Os cereais anunciavam que continham mais açúcar que antes e, por isso estavam melhores ainda.

O sonho das meninas da época era ter a Melissinha que vinha com a pochetezinha.

Havia uma menina que trazia um Laka para o namorado, mas como ele demorava para encontrá-la, comia o chocolate e para compensá-lo beijava-o.

Como não lembrar das propagandas das lojas: Mesbla, Arapuã, Alfred, J.H. Santos – nenhuma existe mais.

Era comum buscávamos cigarro no armazém para os adultos para podermos comprar balas com o troco.

Entregávamos leite na casa dos vizinhos. Alguns eram simpáticos como a dona Lurdes, que nos convidava para entrar enquanto despejava o leite em outro recipiente. Outros eram antipáticos e nos deixava esperando na porta.

Comprávamos mel no seu Elpídio – velho ranzinza e mal encarado, mas que de vez em quando nos presenteava com favos de mel. 

Entregávamos a revistinha da Avon na casa das senhorinhas que, adoravam comprar perfumes adocicados com os quais enfeitavam a penteadeira no quarto.

Havia os porcos os quais costumavam fugir da “mangueira”. Acho que eles não gostavam muito desse lugar, pois seguidamente fugiam.

Nós éramos incumbidas de procurá-los e trazê-los de volta.

Lembro-me do seu André perguntando, quando nos víamos:

– Os porcos do seu Zé fugiram de novo, gurias?

– Sim – respondíamos envergonhadas.

Eles gostavam mesmo era da plantação de aipim e de milho do vizinho do lado. O seu Baiano ficava furioso quando via os canteiros revirados e nós ficávamos com as pernas e roupas rasgadas ao pular a cerca com arame farpado para buscá-los.

Como não nos lembrarmos dos porres de vinho com açúcar e água que tomávamos durante os almoços de domingo com os guris da Célia.

Os dias que choviam eram os melhores. Alagava tudo então podíamos brincar nas poças.

Gostávamos da chuva, também porque ela fazia com que o pai viesse para casa. Chovendo ele não poderia trabalhar. Não podendo trabalhar vinha para casa. Vindo para casa tínhamos um certo descanso do comportamento tempestuoso da minha mãe.

Íamos buscar gelo na casa da dona Luci, nos dias quentes, a mesma em que íamos para olhar televisão.

Andávamos no porta-malas do carro – inclusive era disputado pela garotada.

Havia os espertalhões que apareciam vendendo produtos excepcionais, que não passavam de engodo, o que era constatado após algum tempo, depois que já estavam distantes enganando outras pessoas.

Tinha um senhor que vinha vender frutas e verduras numa carroça pequena. Usava uma balança manual. Era sério. Quase nunca sorria. Não sabíamos o nome dele. Minha avó criou um apelido para ele, acho que era meio ofensivo, pois tinha medo que descobrisse a maneira que nos referíamos a ele.   

Era comum os pedintes serem bem acolhidos recebendo um prato de comida bem generoso e água.

Às vezes, apareciam os fotógrafos que se ofereciam para restaurar fotografias trazendo-as tempos depois em molduras ou produzir em casa um ensaio fotográfico com as crianças da família, tudo bem pitoresco.

As balas eram extremamente gostosas e perigosas, embora ninguém tivesse essa noção na época.

Se engolíssemos o cliché minha avó vinha correndo uma colher com azeite para tomarmos, se não teríamos as tripas grudadas.

Tínhamos cofrinho onde colocávamos moedas que depois eram depositadas na poupança da Caixa Econômica Federal. O cofrinho em questão era uma lata de cerveja recolhida na rua..

Minha irmã do meio tinha como hábito apanhar de meninas maiores que ela e se tornarem melhores amigas depois.

Éramos felizes e sabíamos.

11/03/2.019

Devaneios à beira-mar

Por: Josaine Airoldi

Eu não tinha intenção de entrar mar adentro, como acho que pensou.

Estava somente divagando solitária e triste.

A reunião que eu tinha terminou mais cedo do que eu tinha previsto.

Não estava a fim de retornar para a escola e muito menos ir para casa.

Então, me restava a praia, a imensidão azul do mar, o eterno incansável ir e vir das ondas…

Eu estava vestida de: professora-titular que tem reunião na escola da estagiária.

Então, tive que improvisar: tirei o calçado e arremanguei as calças para poder sentir a água gelada, mas aos poucos fui entrando um pouquinho mais…

Gosto da água do mar chegando devagarinho, me trazendo à realidade.

– Oi! Quer carona? – me perguntou!

Eu estava tão absorta nos meus pensamentos, que esqueci de todo o resto.

Olhei em direção daquela voz.

Encontrei um rapaz: jovem, bonito, simpático…Parecia preocupado comigo, não sei por quê.  De certo achou que eu era louca.

Não respondi.

Então, achando que eu não tinha entendido ou não tinha ouvido, aproximou ainda mais o carro e repetiu:

– Quer carona?

Olhei em volta a praia estava quase deserta.

As ondas do mar indiferentes a tudo e a todos.

Estava tão perdida em mim mesma que resolvi aceitar.

Durante o trajeto: contou que era representante de uma marca de calças jeans e estava voltando para Porto Alegre, naquele momento.

Ofereceu-me uma calça do mostruário – a minha estava totalmente molhada, mas não aceitei.

 Expliquei que não tinha intenção de entrar mar adentro.

Não tinha coragem para algo tão trágico.

Queria apenas um pouco da serenidade que sempre encontro ao caminhar pela beira do mar, deixando a água me levar…

O nome dele eu esqueci, mas lembro-me que beijava bem.

Lembro-me também do jeito que me olhava.

Deixou-me em casa sã e salva.

Deve ter contado para alguém que, salvou uma desconhecida, numa manhã qualquer a beira-mar de Tramandaí da melancolia em que estava mergulhada.

Deveria ter aceitado a calça.

29/04/2.020

Eu não era ela

Por: Josaine Airoldi

Depressão após fim de namoro!

Tristeza sem fim.

Transferência de escola.

Redução de salário.

Muitas contas a pagar.

Últimos semestres na faculdade.

Estágios. Relatórios. Trabalhos de conclusão. Teatro da Gleydes. Artigo para a Terezinha. Formatura à vista. Tudo ao mesmo tempo. Só quem viveu sabe! 

Foi então que ela teve a ideia.

Não só isso colocou-a em prática.

Soube depois.

Aceitei.

O que mais poderia acontecer na minha tão atribulada vida. 

Escreveu uma carta como se fosse eu. – isso aconteceu em 1.999 – então…  

Por telefone ficou horas me instruindo como deveria falar.

Mandou uma cópia para mim pelo correio.

Havia alguns erros de ortografia que para alguém que estava concluindo um curso de Letras ficaria no mínimo feio.

O pior é que havia feito cópias e mandado para vários perfis que achava que se encaixava com o meu.  

Tinha que confirmar que eu era aquilo que estava escrito. 

Já tinha esquecido dessa história quando recebi uma ligação.

A voz era agradável e a conversa também.

Chamava-se João – se não estou errada.

Conversávamos quase todos às noites após a Faculdade.

Era a melhor parte do meu dia ou da noite.

Relatava sobre as idas ao supermercado acompanhado pela sobrinha.

Eu contava sobre as aulas e sobre assuntos banais.

As férias de julhos estavam próximas.

Combinamos de nos encontrarmos quando fosse para Porto Alegre.

Minha amiga e mentora tinha que estar junto.

Instruída por ela marcamos num restaurante perto da casa dela.

Eu estava entre curiosa e em pânico.

O que me dava segurança era que sempre tão articulada e esperta não deixaria eu entrar em nenhuma cilada.

Fomos.

Estava divertido.

Rimos bastante imaginando quem era.

Encontro às cegas o que poderia dar de errado.

Até então todas as informações a respeito do pretendente a namorado estava perfeito.  

Ah! Eu tinha que parecer elegante. 

Então, se me perguntasse o que eu gostaria de beber teria que dizer que era suco de laranja.

Cerveja era vulgar.

Vinho era caro.

Refrigerante era infantil.

Tudo preparado.

O rapaz não aparecia.

Quando chegou.

Primeira decepção: era feio e estava vestido com o uniforme da empresa.

Não condizia com a voz, mas condizia com a descrição que eu havia escutado, mas não com a que eu tinha imaginado.

Após as devidas apresentações.

Então, avisou que daria uma volta para que pudéssemos conversar.

A conversa não fluiu como fluía pelo telefone.

Relatou as desaventuras que teve certa vez numa viagem que fez para o litoral.

Nada interessante para um primeiro encontro.

Não precisei escolher o que beber pois, não houve essa possibilidade.

Mas o que me incomodou bastante era que estava apreensivo para que minha amiga voltasse.

Quando minha amiga voltou ficou encantado novamente por ela que não tinha nenhum interesse nele.

Era casada.

Estava bem assim.

Rimos bastante depois.

Nunca mais me ligou.

Segui a vida.

Aos poucos tudo foi serenando.

Enfim, eu não era ela.

24/04/2.020

Dindo… Du

Por: Josaine Airoldi

Meu avô tinha duas personalidades.

Nós, as crianças, gostávamos mais da segunda.

Não tínhamos ideia do que os adultos passavam quando surtava – ou com dizíamos: estava diferente.

Quando estava na segunda personalidade, ele não ficava doente, falava com fluência, era destemido para desespero dos demais membros da família.

Como éramos crianças e não tínhamos noção do que acontecia, achávamos tudo divertido.

Quando víamos com uma maleta preta – que minha avó escondia, mas sempre a encontrava – sabíamos que iria começar tudo outra vez.

Era comum comprar coisas de que não necessitava de modelos e cores diferentes.

Por muitos anos não foi necessário comprar garrafas térmicas.

Quem não o conhecia considerava-o um próspero criador de gado da região.

Quem o conhecia tentava ajudar, avisando minha avó dos empreendimentos que andava fazendo que cedo ou tarde, teria que desfazer.

Era comum acusar todos que tentavam em vão trazer–lhe a realidade, de querer o mal dele.

Esbraveja em alto e bom som:

– Vocês querem ver o meu mal! Vocês não querem me ver bem! Vocês gostam de me ver doente!

Saía sem rumo.

Ninguém conseguia detê-lo.

Para voltar para ao “normal” era necessário a interversão e ajuda de uma vizinha que era enfermeira: Dona Noemia.

Depois de longo período internado em num hospital em Porto Alegre voltava sob efeito de medicação, que provocava muito sono.

Quando chovia ficava deitado nos perguntando se estava chovendo.

Quando dizíamos que sim, acrescentava:

– Mas é água!

Enquanto isso minha avó lutava contra as intempéries da natureza.

Tudo ficava mais difícil para ela, principalmente a ordenha das vacas.

Ambas personalidades ficavam extremamente irritadas quando algum desavisado ocupava o lugar dele à mesa.

Não dizia nada, apenas ficava em volta esperando a minha avó informar que aquele lugar era dele.

O mais incrível era como descrevia a festa que eu teria quando completasse quinze anos.

Dizia sempre:

– Vou te dar uma pulseira cravejada de ouro.

Numa das sessões de terapia descrevendo meu avô contei essa história.

Meu terapeuta me perguntou, com voz embargada, se eu tinha ficado decepcionada porque o desejo do meu avô não foi concretizado?

Disse que não. Nunca me importei com a festa ou com o presente. Achava divertido o modo que falava. Gostava da atenção que me dava e do fato de dizer que eu era especial para ele por ser sua primeira neta e além disso sua afilhada.

Eu o chamava de Du.

Dizem que quando era pequena não era capaz de pronunciar: Dindo.

Ele se foi em outubro quando eu tinha 14 anos – seis meses depois que minha avó.

Sinto falta dos dois até hoje.

18/05/2.020

O presente para a professora

Por: Josaine Airoldi

Quando o encontrei não tive dúvida: ele era perfeito.

Recolhi-o e levei-o para casa.

No outro dia todos estavam em volta da professora a presenteando.

Não entreguei, fiquei com receio, de que me dissesse algo desagradável perante a turma.

Ela sempre foi cruel comigo, talvez também tenha sido com os demais colegas, não sei.

Estávamos na terceira série no ano de 1.983.

Dessa época me lembro, entre outras coisas, da criação do “Pelotão da higiene”.

Eram cinco alunos preferidos que faziam parte desse grupo.

Nos minutos finais da aula eles entravam em ação.

Eu – uma dos não preferidos – tinha que colocar as mãos sob a classe e esperar que olhassem se minhas unhas estavam limpas e cortadas, se os meus dentes estavam bem escovados, se os ouvidos estavam bem lavados e se o meu cabelo estava limpo e livre de piolhos.

Esse era o pior momento.

Eu tinha piolhos que por mais que eu lutasse contra eles, eles venciam sempre; apesar disso nunca encontraram nenhum na minha cabeça.

Na verdade eles mal nos olhavam.

Acho que se sentiam constrangidos tanto quanto nós.

Também, era cruel quando não levava o material pedido para as atividades de Educação Artística.

Eu era colocada num grupo.O grupo dos que não trouxeram o material solicitado.

Neste grupo recopiávamos um texto, sempre enorme.

Graças a esse método eficiente consegui decorar um dos textos que passou durante aquele ano: O cachorro e a sombra.

Também tinha o caderno da professora.

Cada dia um aluno tinha que escrever naquele caderno e depois copiar o conteúdo para o seu próprio caderno.

É o que chamávamos de comprovante do aluno durante o meu estágio do Magistério, anos depois.

Quando minha vez chegou, eu me perdi totalmente.

Copiei para ela; mas não consegui copiar para mim.

O conteúdo?

Ainda sei qual é: Zona rural e zona urbana.

Conteúdo da prova tempos depois.

Eu não sabia absolutamente nada do que se tratava.

Um fato inusitado que aconteceu durante aquele período foi proporcionada pelo Leandro.

Leandro era o aluno repetente e, por isso se considerava capaz de colaborar com a aula da professora.

Eu achava impressionante a capacidade que ele tinha de irritá-la profundamente com as intervenções que fazia durante a aula.

Ele conseguia perturbá-la tanto que chegou ao extremo de nos transmitir uma informação equivocada, para que Leandro a corrigisse, mas isso não ocorreu.

Ela mesma teve corrigir a informação errônea dias depois.

Ao fazer isso lhe questionou:

– Leandro, por que não disse que eu estava errada?

Ele, calmíssimo, diante da declaração bombástica da professora respondeu:

– É muito simples: esse conteúdo eu não tive no ano passado.

Não sei se rimos na ocasião, mas foi muito engraçado.

Certa vez – ouvindo uma conversa da minha mãe com a minha avó – soube que o marido estava preso.

Não me lembro por qual motivo.

Como morávamos no mesmo bairro, voltávamos juntas.

Era comum me pedir para carregar o seu material quando avistava um carro vindo ao longe.

– Segura isso para mim, ele não pode perceber que estou trabalhando – disse uma vez.

Embora sabendo de tudo isso nunca consegui usar essas informações valiosas a meu favor.

Certa vez conversei com ela pelo telefone.

Ela queria fazer um pedido de frutas e verduras para que meu pai levasse até o estabelecimento comercial tal.Reconheci na hora aquela voz, porém nada disse.

Anotei tudo.Disse que iria repassar a encomenda naquele momento mesmo.

Ouvi antes que desligasse o telefone um comentário dela, talvez para o marido ou coisa assim.

– Ela era tão quietinha!

Depois de uns anos compreendi o quanto foi bom não ter dado o presente à professora.

Percebi isso num supermercado na seção dos condimentos.

Eu iria dar uma embalagem de plástico de sal retirada da lixeira à querida professora pelo seu dia.

O chapéu que tanto me impressionou é na verdade a tampa.

Devo dizer em minha defesa que, embora tenha uma memória excelente, sou um pouquinho distraída.

15/10/2.010

Uniforme

     Por: Josaine Airoldi

Naquela tarde eu e a Vanderleia ficamos no pátio da escola vendo a legião de pessoas que se aglomeravam na porta da sala de aula, para receberem um corte de tecido branco – para a camisa e outro corte de tecido azul marinho – para a saia ou para a calça – no caso dos meninos.

Tanto eu – por meu pai ser caminhoneiro e minha mãe ser artesã e a Vanderleia, pelo pai ser construtor e a mãe ser dona de casa – se não me engano – não éramos consideradas alunas de baixa renda, por isso não recebemos o uniforme distribuído pela prefeitura.

No outro ano, além dos pedaços de tecidos, havia um suéter azul marinho os quais todos receberam, independente da situação financeira.

A exigência quanto ao uso do uniforme era rigorosíssima.

Geni, que estudava comigo na terceira série, certa vez teve que ir embora: estava sem o uniforme.

Certa vez, tio Pedro que vendia roupas e vinha de vez em quando para Tramandaí, apresentou um abrigo horrível preto, que era uma das cores permitidas para uniforme – minha mãe não teve dúvidas quando percebeu que a numeração era muito maior do que o eu realmente usava.

Eu tentei várias vezes rasgá-lo.

Não adiantava era de linho e dos bons, para meu azar.

Ninguém tinha igual na escola.

04/12/2.010

O caminho

Por: Josaine Airoldi

Ter uma bicicleta e morar perto da escola foram fundamentais para a terceira série da qual eu fazia parte, ganhar a gincana em 1983.

Eu não tinha nenhum dos dois requisitos.

Talvez, por isso a professora não tenha me deixado participar da comemoração, me expulsou, ou melhor, me enxotou:

Eu tentava explicar: “eu não posso ir embora, não sem a minha irmã.”

– Vai embora – gritava ela batendo o pé com força no chão.

Fui.

No caminho rasguei o poema que havia levado – não tinha sido necessário e, além disso, não tinha sido criado por mim.

Tentando esconder os olhos inchados, enfim, cheguei em casa.

De todas as perguntas que ouvi nenhuma foi:

– O aconteceu contigo para ter vindo para casa sozinha chorando ?

30/06/2.010

Eclipse

Por: Josaine Airoldi

Recriou no seu mundo particular e solitário o mundo exterior.

Gostava dessa ideia.

O mundo lá fora o assustava profundamente, mas com o tempo a solidão começou a incomodá-lo.

Precisava, então, de alguém para dividir seu espaço.

Procurou-a de seu modo.

A princesa em questão sempre quis desbravar a imensidão que é o mundo real e precisava dele para isso, por isso o aceitou.

A convivência entre eles sempre foi muito difícil, embora compartilhassem o mesmo espaço que alguns chamam de lar, poucas vezes um participou do mundo do outro.

Ora é sabido que há questões práticas que se confrontam com questões intimistas; mas para que uma possa existir, a outra tem que viver.

Ela lhe deu o frescor da juventude.

Ele lhe deu a segurança do homem adulto.

Se durante um eclipse: o sol e a lua se encontram, assim acontece com fantasia e a realidade, às vezes.

09/11/2.010

Habilidades e competências

Por: Josaine Airoldi

Segunda-feira.

Amanhece.

Manhã gelada.

Tenho que levantar.

Penso e repenso nos prós e contras.

O telefone que está na sala toca.

Ignoro.

Ele toca novamente.

Não desistem.

Levanto após muito esforço. 

Não era nada de importante.

Poderia não ter atendido, mas atendi e para atendê-lo levantei; se me levantei vou ter que ir.  

Banheiro.

Escovar os dentes.

Banho

Toalha.

O que vestir?

Qualquer roupa que me mantenha aquecida.

Saio.

Percebo que está mais frio do que eu imaginava.

Chego.

Todos reunidos.

Tento não ser notada.

Sento sem fazer muito barulho.

Já basta chegar atrasada.

Não consigo me concentrar.

Preciso estar aqui?

Posso não estar?

Talvez.

Aqui estou: congelada.

Não sinto os meus pés.

Estão paralisados.

Escuto sem muita vontade.

O assunto do momento é: habilidades e competências.

Grupo.

Aceitação.

Diferenças.

Autossuficiência.

Autonomia.

Ao longo dos anos nessa profissão descobri que algumas coisas jamais irão mudar e que fazem parte do processo.

Descobri que se escrever, mesmo que bobagens o tempo passa mais rápido.

Então escrevo.

Escrevo para conseguir aguentar o frio congelante do mês de julho.

Escrevo sobre o quê?

Não é importante sobre o que escrever.

O importante é escrever.

Aprisionar os pensamentos que estão à solta na tentativa da manutenção da sanidade mental.

O tempo está passando mais rápido agora.

O frio está diminuindo, pois o sol está se impondo..

Continuo escrevendo: trechos da palestra.

Trechos de conversas paralelas ao meu redor.

Trechos de algumas constatações óbvias olhando tudo em volta.

Jamais vou conseguir realizar tudo o que deixei para trás.

Não vou ser popular na escola, embora eu ainda esteja na escola.

Não vou ser uma exímia dançarina.

Há coisa que se não acontecem no tempo que tem que acontecer nunca se tornarão reais.

Não vou ser uma boa cozinheira, simplesmente não gosto de cozinhar, embora acho esse ofício sublime.

Talvez, possa continuar sendo uma boa amiga, uma filha compreensiva, uma irmã presente, uma mãe carinhosa, uma esposa companheira, uma profesora eficiente…

Afinal, certas habilidades são para certas pessoas que têm certas competências ou vice-versa.

Para uma existência, talvez, basta.

21/ 07/ 2.019

A história da prova ou a prova de História

Por: Josaine Airoldi

Ela era uma professora implacável conosco.

Todos tinham que ter um comportamento mais que perfeito.

Os textos eram ditados numa velocidade que só sendo muito ágil para conseguir acompanhá-la.

O conteúdo era esmiuçado de todas as formas de exercícios possíveis: questionário, cruzadinha, complete...  em provas que tinham em torno de cinco folhas mimeografadas – que às vezes, ficavam apagadas precisando que nós arrumassem.

Então, ninguém entendeu o porquê de se afastar da sala de aula em uma das últimas provas do ano.

Quem ficava no lugar dela era a professora de Língua Portuguesa que em posse das respostas deixadas com ela, enquanto a professora de História se afastava, misteriosamente se propôs a nos dar as respostas da prova, suplicando que não contasse nada do que acontecia ali para ninguém.

Nós achávamos muito esquisito tudo aquilo.

Sempre gostei de História. Sempre gostei de Língua Portuguesa, ainda mais quando há uma relação.

Suspeito que era combinado para que tivéssemos nota, pois certamente haveria reprovação em massa em História na 5ªsérie.

Será?

28/05/2.020

O Bico Fino

Por: Josaine Airoldi

Certa vez fomos a sua casa.

Eram em torno das 19 horas.

Quando vi aquela cena, achei inacreditável.

Lá estava ele sentado à frente da televisão, concentradíssimo assistindo ao RBS Notícias, com as pernas cruzadas e nos pés um sapato ilustradíssimo de bico fino.

Qual a surpresa?

Não combinava. Algo estava errado na nossa concepção adolescente.

Aquele rapaz que tinha em torno de 17 anos era para estar interessado em nós e não no que estava acontecendo de importante no mundo e principalmente usar como qualquer adolescente tênis.

Gorete o apelido de Bico Fino.

Acho que nunca ficou sabendo que nos referíamos a ele assim.

A mãe fazia o que podia para ver o filho namorando uma de nós.

Éramos as convidadas especiais em todos os aniversários. Acompanhava-o no nosso aniversário.

Às vezes, conversávamos quando nos encontrávamos.

Ele de bicicleta voltando do trabalho, eu a pé voltando da Escola.

Quando completou 18 anos se alistou por obrigação e para seu descontentamento foi convocado.

Não seguiu carreira militar.

Começou a namorar uma menina que não conheciamos.

Eu achava que não iria durar que era apenas momentâneo, pois a garota parecia ser o avesso dele; porém ela engravidou.

Foram morar juntos.

Conversamos algumas vezes enquanto esperávamos o ônibus para irmos ao trabalho.

Inevitavelmente eu olhava para seus pés.

Nunca falamos daquela época.

Apenas por educação perguntava pelas meninas.

– Estão bem. – Respondia.

Então, mencionava o nome delas e a idade de cada uma.

Hoje avistei suas duas meninas com a avó.

Lindas e muito parecidas com ele.

22/11/2.010

O filho do carvoeiro

Por: Josaine Airoldi

Perto da minha casa havia uma família que produzia carvão.

Eram conhecidos como: os carvoeiros.

Na chácara onde moravam tinha um portão altíssimo e em cima tinha a cabeça de boi ou vaca com uns chifres enormes que eu e a Nane apelidamos de Valério.

Valério era um menino chato que defendia as formigas que, na falta de algo melhor para fazermos, gostávamos de matá-las.

Certa vez, apareceu outro menino.

Era franzino, bem mais velho que nós, com sardas no rosto e com cabelo meio avermelhado.

Nós morríamos de inveja dele por ter uma bicicleta, mas como não queríamos que ele percebesse fingíamos que estávamos muito bem indo e vindo a pé da escola todos os dias.

O que fazia ele inventar maneiras diferentes de passar por nós todos os finais de tarde.

Fez tanto até que conseguiu chamar a atenção.

Parou a nossa frente, retirou da sacola um pote, abriu-o, bezuntou o dedo, lambendo–o logo em seguida.

O que é isso? – queríamos saber.

– É chimila – respondeu.

– Chimia! – Corrigimos.

 – Não, chimila! – Repetiu

Apelidamos de Chimila, o filho do carvoeiro.

19/05/2.020

Santa Louca

Por: Josaine Airoldi

Tínhamos um medo danado daquela triste e sofrível criatura, que até onde eu sei nunca fez mal a ninguém.

Quando minha irmã desobedecia era ameaçada com a doação de seus bicos à Santa Louca.

Santa Louca em questão era uma mulher que vinha não sei de onde e ia para não sei onde, sempre mancando e sempre maltrapilha – usava uma saia muito curta que deixava aparecer a calcinha com rendinhas.

Diziam que ela tinha tido uma recaída.

Eu achava a palavra engraçada: recaída, mas não fazia ideia o que significava.

Falava-se sobre tudo na frente das crianças, mas ninguém nos dava muitas explicações, quando queríamos saber mais sobre algum assunto que não era teríamos como entender naquela idade.

O motivo pelo qual tinha enlouquecido, após ter depressão pós-parto – nome mais adequado aos dias de hoje, era porque encontrou o marido com a irmã dela. Eu continuei sem entender o porquê tal fato fazia uma pessoa simplesmente enlouquecer.

Diziam, também, que os bicos que carregava pendurados no pescoço eram do filho recém-nascido que estava sendo criado pelo pai e pela tia.

O que sabíamos que ela era louca – ora porque alguém ficaria andando de um lado para o outro sem motivo, vestida daquele jeito e com bicos pendurados no pescoço?

Nunca fiquei sabendo o nome dela e nem o real motivo para ter enlouquecido.

O que eu sei é que a Santa Louca ficou para sempre no meu imaginário e, talvez, de todas as crianças que a viam passar, todos os dias, vindo não sei de onde e indo não sei para onde.

05/05/2.020

Não tinha lugar para mim

Por: Josaine Airoldi

Estávamos voltando da escola quando avistei o caminhão vindo.

Comecei a vibrar, pois iria para casa de carona.

Iria fugir daquele sol escaldante de setembro.

Qual não foi minha surpresa em ouvir que não tinha lugar para mim, que teria que continuar indo embora a pé.

Eu poderia machucar minha irmãzinha.

Aquela que tanto tinha pedido, desesperadamente, para os aviões que avistava percorrendo o céu; trouxesse.

Até aí, quase tudo bem!

O que foi terrível foi encarar a galera que estava junto comigo, para a qual eu tinha anunciado que era meu pai que estava vindo com minha mãe e minha irmãzinha que tinha nascido dias antes.

Não tem lugar para ti. – A frase martelava na minha cabeça.

A partir daquele dia eu percebi que não teria lugar para mim em lugar nenhum, pois tudo era para a irmã caçula.

Eu era definitivamente a mais velha.

Aquela que tinha que cuidar da mais nova e dar exemplo para a irmã do meio que também não gostou da sua nova função na família.

Onde minha condição de criança ficava nessa equação?

Aos poucos fui percebendo que minha infância tinha sido decretada acabada aos nove anos de idade.

Não tinha lugar para eu ser criança na família.

16/04/2.020

É como andar de bicicleta

“Que possamos lembrar somente dos bons momentos.”

Por: Josaine Airoldi

                                                                            

É como andar de bicicleta – alguns dizem quando querem se referir ao que nunca esquecemos, uma vez aprendido, mas esquecem-se como é difícil aprender.

Os adultos em volta diziam que era fácil: é só se  equilibrar e pedalar.

Eu não conseguia: ou me equilibrava ou pedalava. As duas coisas juntas não eram possíveis: o chão era o limite.

Ela, a bicicleta na qual eu tentava – sem muito sucesso andar – não tinha rodinhas. Eu também não tinha mais idade para uma daquelas. Era uma Caloi 10. Enorme para mim. Além disso, não era minha. Era da minha tia que sabia andar e costumava nos levar na garupa de vez em quando.

Eu aprendi a andar de bicicleta depois de… 

Ter levado muitos tombos…

Ter ralado os joelhos…

Ter machucado os cotovelos…

Entre outras coisas que acontecem com quem quer aprender a andar de bicicleta…

Quando tivemos a nossa bicicleta. Era para eu andar primeiro – disseram.

Minha irmã não me deixou ter esse prazer, mesmo com os pneus murchos ela deu a primeira pedalada. Caiu logo em seguida, mas foi quem andou primeiro.

Era vermelha. Não tinha muitos detalhes, mas era indicada para meninas por ser mais leve e fácil de andar.  

Chamávamos de Moto Laser era o nome de um seriado que passava na televisão aos domingos.

Muito nos divertimos com ela: eu e minha irmã.

Ela, a Moto Laser e todas aventuras que nos proporcionou são algumas coisas que gosto de lembrar para não esquecer…

15/03/2.020

Embruxada

Por: Josaine Airoldi

Minha irmã caçula herdou do meu pai os olhos azuis que tanto a minha mãe desejou durante a gravidez e também as crises de asma do meu avô.

Foi benzida por todas as curandeiras da cidade, inclusive minha avó que tinha o costume de “coser” os males de quem precisasse e pedisse.

Eram ensinadas inúmeras simpatias para curá-la.

Todas eram feitas a risca.

Nenhuma, até hoje, surtiu efeito.

Então, alguém sugeriu que a menina estava embruxada, por isso continuava tendo crises e não se curava.

– Como assim, embruxada? Havia uma bruxa entre nós? – Eu me questionava.

A conversa dos adultos continuava indiferente a minha expressão de medo e espanto, ouvindo tudo aquilo.

– Isso mesmo.

A bruxa é a primeira pessoa que vier aqui amanhã. – Explicou aquela que parecia entender bastante do assunto.

Era preciso que essa pessoa deixasse de ter contato com a criança para as crises acabassem.

Quase não dormir naquela noite.

Precisava conferir quem era a bruxa.

Será que seria igual as que apareciam em livros e filmes que passavam na televisão?

Qual não foi a surpresa de todos quando a tia Wilma chegou.

Não conseguia olhar para ela.

Não poderia ser ela.

– Como assim, embruxada? Havia uma bruxa entre nós? – Eu me questionava.

A conversa dos adultos continuava indiferente a minha expressão de medo e espanto, ouvindo tudo aquilo.

– Isso mesmo.

A bruxa é a primeira pessoa que vier aqui amanhã. – Explicou aquela que parecia entender bastante do assunto.

Era preciso que essa pessoa deixasse de ter contato com a criança para as crises acabassem.

Quase não dormir naquela noite.

Precisava conferir quem era a bruxa.

Será que seria igual as que apareciam em livros e filmes que passavam na televisão?

Qual não foi a surpresa de todos quando a tia Wilma chegou.

Não conseguia olhar para ela.

Não poderia ser ela.

Era muito engraçada, sempre nos fazia rir muito de qualquer coisa, além disso, nunca havíamos falar em bruxa loira.

Eu tinha certeza que a bruxa – aquela que estava causando todo o mal – era uma senhora muito feia e se assemelhava a uma criatura das trevas – que era muito amiga da família e frequentemente estava lá em casa, então porque não apareceu nesse dia?

Não me recordo com foi recebida por nós, mas todos que a conheceram guardam com carinho boas lembranças suas.

Não sei se a tia Wilma ficou sabendo que era uma bruxa, mas se soube, certamente, deu muitas gargalhadas.

16/05/2.020

O sorriso da Gracinha

Para a 4 ª série de 84 – Escola Thomaz!

Por: Josaine Airoldi

Ela sempre foi muito bonita e tem um sorriso encantador.

Em todas as aulas esperávamos a mesma cena: ela ir apontar o lápis e próximo à lixeira ficar rindo baixinho. Do que ria? Não me lembro. Acho que não tinha motivo. Talvez, o que o gostávamos era a “quebra” na rotina da aula.

Estávamos em processo de democratização no Brasil, então era comum vermos colegas impedidos de assistir a aula por não estar com o uniforme ou a aplicação de castigos como: cheirar parede ou permanecer com os joelhos em uma tábua com tampinhas viradas para cima, além dos puxões de orelha, caso não obedecesse ao professor de Matemática. Era o único que nos agraciava com esses métodos corretivos de outrora. Os demais nos ameaçavam com a secretaria – era onde ficava a diretora e com o temível livro de ocorrências – provavelmente era caderno comum onde se anotava sobre o mau comportamento dos alunos, a fim de que fosse possível tomar alguma providência futura – mais ou menos como se faz nos dias atuais.

Como eu era muito comportada nunca foi necessário o uso de nenhuma coisa e nem outra comigo.

Em setembro, enfileirados e uniformizados com chuva ou sol marchávamos e exaltávamos a pátria mãe gentil.

Em casa, à noite ouvíamos o pronunciamento do Excelentíssimo Presidente da República General João Figueiredo que interrompia a programação normal sempre que bem entendia.

Lembro-me também do Hino Nacional Brasileiro sendo cantado pela Fafá de Belém em meio a uma multidão pedindo: Diretas já!

Acompanhávamos pelo Jornal do Almoço as conturbadas brigas do ex-casal: Teixeirinha e Mary Terezinha que tinha se apaixonado por outro e deixado o Rio Grande do Sul dividido e mais tarde de luto.

Em Tramandaí, acompanhávamos as peripécias do então prefeito: Sessim – aquele que é amado ou odiando pelos que o conhecem.

Foram tempos confusos para quem não entendia muito bem o que estava acontecendo. Éramos crianças. Só precisávamos ser comportados que nada de ruim aconteceria, assim era na escola, assim era em casa.

Acho que por isso o sorriso da Rosangela, a Gracinha nos remetia a ideia que podíamos subverter a ordem, pelo menos por alguns instantes.

29/04/2.020

Gadeias

Por: Josaine Airoldi

Ela me causou vários problemas.

Assim começou o seu relato.

Era um dos motivos preferidos da mãe para brigar comigo.

Quando estava tudo bem lá em casa ela resolvia cuidar do meu cabelo.

A pergunta e a explicação eu já conhecia de cor:

– Cadê a tua escova?

– Quero pentear essas tuas “gadeias”.

Geralmente eu não sabia, até porque eu a odiava.

As “gadeias” em questão era o meu cabelo loiro, comprido e embaraçado.

Em virtude disso eu tinha até uma característica particular: eu era “gadelhuda.”

Ela não tinha paciência nem comigo nem com ele.

Escova-o com raiva puxando-o com força e quando estava de mau-humor amarrava-o com mais força ainda.

Ainda sinto o cabo de madeira que era batido com toda a força na minha cabeça quando não conseguia desembaraçá-lo.

Numa das eternas busca pela escova perdida encontrei-a entre os resíduos de lixo que haviam sido queimados no pátio.

Ela estava parcialmente queimada, principalmente nas cerdas.

Tudo ficava pior quando encontrava piolhos no meu cabelo, o que não era nada difícil.

Eu me sentia como um criadouro deles.

Ficamos em silêncio, por um longo tempo, ouvindo o barulho da chuva que caia incessantemente e indiferente a nós e a nossas memórias.

Certa vez…

-Leva e pede para a professora pentear o teu cabelo.

No momento que foram chamados os alunos cujos pais queriam a foto do filho tirada por um estranho que cobrava para isso; fui até a professora com ela na mão. Não pedi. Não tive coragem.

Preferi permanecer com os cabelos rigorosamente amarrados num rabo de cavalo: assim eu apareço na “Lembrança Escolar”.

Acho que no fundo eu tinha convicção que arrumar o meu cabelo era obrigação da minha mãe e que era um absurdo eu ter que pedir isso para a professora, além, claro do medo terrível que eu tinha de desagradar qualquer uma das duas.

Como era inevitável, desagradei a mim.

Tirei a foto como minha mãe queria e não perturbei a professora.

A minha irmã que nunca teve uma escova exclusiva como eu e nunca teve cabelos embaraçados, os cabelos dela eram lisos ao extremo, os quais gostava de cortá-los escondida atrás do fogão a gás se tornou cabeleireira e tem escovas de todos os formatos e utilidades.

Sabe como ninguém manuseá-las entre um corte e um penteado.

Eu continuo desgrenhada… – Diz rindo e encerrando assim nossa conversa.

23/11/2.010

Os tiradores de sangue

“Naquele tempo nossos medos eram outros.”

Por: Josaine Airoldi

Esqueça o homem do saco, o bicho papão, a mula sem cabeça e todas as formas de amedrontar às crianças, nenhum deles me provocava medo.

Eu receava ser atacada pelos tiradores de sangue.

Não se trata de vampiros, embora eles também não existam.

Não sei de quem eu tinha mais medo se da minha mãe ou se deles.

Na volta da escola era sempre a mesma coisa.

Se eu a seguisse, desobedeceria minha mãe.

Se eu não a seguisse ela os acionava.

Bravamente e solitariamente eu seguia pelo caminho indicado pela minha mãe enquanto ela chamava: Os tiradores de sangue.

Embora eles nunca tivessem aparecido, eu os temia.

Ela era assim sempre tinha uma brincadeira, uma história ou uma solução para tudo.

Uma das nossas brincadeiras consistia em brincávamos de “casinha” numa casa de verdade.

 A filha dela era sempre a minha irmã.

Era em quem dava banho, colocava bastante talco e após vesti-la com a sua melhor roupa, saíamos para passear.

Ela sempre com algum sapato ou sandália de salto alto da minha tia.

 Às vezes, eu era a professora; ela a mãe preocupada.

Certa vez quando veio buscar o boletim da filha eu seriamente usei uma expressão corriqueira o cotidiano escolar:

  – Sua filha passou raspando.

Começaram a rir sem parar.

Primeiro ela depois a filha que nunca tinha frequentado a escola e não fazia a menor ideia o que significava o que eu havia falado. Isso foi o que me dava mais raiva: o poder que tinha para influenciar as pessoas.

 Fiquei profundamente chateada, ora não era para brincar com a brincadeira.

Quando era na sua casa as brincadeiras eram outras.

Fazíamos orelhas de macaco – era para serem bolinhos fritos.

Atrapalhávamos o namoro da minha tia com um dos irmãos dela.

Como não tínhamos luz elétrica eles gostavam de namorarem no escuro ou tentarem pelo menos.

 Queimar papel higiênico sujo, certa vez quase incendiei a “patente” não havia banheiro.

 Quando brincávamos trocávamos de nome.

Tínhamos nossa amiga e vizinha imaginária: a Lita.

 Também, brigávamos muito, principalmente quando ela queria fazer aquilo que eu não podia fazer.

Eu sabia que na hora de ser responsabilizada era eu quem tinha que arcar com as consequências porque ela estaria longe.

Como éramos três, é claro que eu sobrava.

Às vezes o meu primo me defendia e batia nela com uma toalha de um modo que somente ele conseguia.

Nunca brigamos fisicamente, mas eu gostava quando ele se vingava dela por mim embora eu achasse exagerada atitude dele em relação ao que havia acontecido; porém era bom me sentir protegida.

Talvez seja por isso que ela usou seu olhar malicioso para insinuar que eu tinha feito algo com ele que não fiz.

Se eu soubesse que isso somente aconteceria dez anos depois e com outra pessoa não teria ficado tão magoada e não teria ficado quase um ano sem conseguir olhar para ela.

 Só voltei a conversar com ela depois depois.

 Com certeza, ela foi minha melhor e pior amiga de infância que eu tive.

                                                                                              27/ 11/ 2.010

Bodas de plástico

Por: Josaine Airoldi

Busco na memória lembranças nossas.

Hoje sei que deveria ter sido melhor contigo te deixando ir embora logo em seguida.

Fui egoísta te deixei entrar, um pouquinho, mas deixei.

Nunca te amei, perdão.

Nunca te respeitei, desculpas embora tarde sei que podes me compreender.

Nunca te quis realmente, não posso negar este fato.

Sei que estás bem.

Estás longe de mim e de minhas amarras egoístas.

Fiquei com algumas boas lembranças, é verdade: os CD da Legião Urbana com os quais sempre me presenteava em datas especiais.

Nossas tardes de domingo com sorvete e Martini.

E o amanhecer na praia…  

Nossos planos mais profundos foram aqueles que fizemos um ao outro numa noite qualquer enquanto estávamos num bar. Nessa noite entre uma caipirinha e outra construímos um anel para comemorarmos nossas Bodas de Plástico.

Guardei o nosso símbolo até aquele domingo de sol forte em que finalmente te disse adeus para sempre.

Não lembro o que comemoramos naquela noite, mas lembro-me que aquela tarde era teu aniversário.

07/08/2.010

Doroteia

Por: Josaine Airoldi

Ela apareceu certo dia.

Chegou sem ser convidada.

Foi logo bem acolhida pela minha avó, que recebia bem a todos: os transeuntes que pediam abrigo, os que vendiam bugigangas, os que se ofereciam para ajudar no que fosse necessário em troca de algum prato de comida ou de alguns trocados…

Era alta, delgada, tinha o couro amarelado e o focinho fino, não sei de que raça, mas era bem diferente dos outros dois que tínhamos: o Macaco e o Leão.

Além deles tínhamos o Betinho, que como ela apareceu certa noite e foi ficando, se tornando o gato da família.

Doroteia – esse é o nome que demos a ela – tinha uma particularidade canina excepcional: somente atacava mulheres, com os homens era cordial e amistosa.

Doroteia era exímia em trazer panelas dos vizinhos para casa e também as levava. Tínhamos panelas sem tampas e tampas sem panelas.

Sentimos muito a falta dela quando percebemos que não voltaria mais.

Doroteia não era de se apegar.

20/11/2.010

A banda

“Naquele tempo ser baliza era o máximo…”

Por: Josaine Airoldi

Reunião.

Blá! Blá! Blá! Blá! Bla!…

Intervalo, enfim!

Banda da escola. Expectativa total. Estão no começo. Bem no começo. Nós seremos a sua primeira plateia.

Todos têm uma história para contar sobre banda escolar.

Olho em volta somos da mesma geração.

Entram ordenadamente.

Direita volver.

Esquerda volver.

Nada mudou.

A mente viaja. Escola Tomaz. Início da década de 80. Época em que era obrigatória a perfeição nos desfiles cívicos. Desfilávamos marchando. Esquerdo. Direito. Esquerdo. Direito… Olhar rente a cabeça do colega da frente. Uniforme impecável. Impecável também tinha que ser a nossa apresentação. Ensaiávamos quase todas as tardes durante o mês de agosto.

Sempre fui alta. Ficava por isso no final da coluna. Além disso, era desengonçada.

O fato é que mesmo de lá eu a via. Linda. Magnífica. Bailava e encantava a frente dos batalhões enquanto ouvia-se o som da banda municipal.

Eu sabia que nunca ocuparia aquele posto, mas desejava.

Naqueles tempos idos, não era proibido sonhar.

21/ 07/ 2.010

Se eu morresse agora…

Por: Josaine Airoldi

Começou no sábado pela manhã.

Não fui trabalhar.

O domingo foi mais tranquilo.

Na segunda-feira pela manhã fui trabalhar.

Era importante terminar as atividades pendentes, porém à tarde não foi possível comparecer ao trabalho.

Comecei a piorar cada vez mais.

O xarope não fez efeito.

Tive que compreender que estava doente e precisava de opinião médica.

Esperei pacientemente durante a terça-feira o Márcio voltar de Esteio, para que me levasse ao hospital.

Depois de muito esperar, sou atendida.

Embora não confiasse na opinião da doutora era a única que tinha; por isso tinha que acreditar no tratamento que me prescreveu.

Naquele momento tudo o que eu desejava era a perspectiva que iria melhorar.

O corpo todo doía.

Não parava de tossir.

Às vezes, segurava a respiração para não sentir dor.

O tratamento não faz efeito.

Volto ao hospital.

Tenho direito a reconsulta.

Outro médico. Que bom! – penso.

Eu tinha certeza que o diagnóstico estava errado e que se estivesse certo o tratamento estaria melhor.

Nova decepção: o médico me trata de maneira indiferente e mantêm o tratamento, acrescenta um remédio para dor no estômago, que embora eu ache que não é preciso: compro.

Com muita má vontade o médico me dá um atestado de dispensa do trabalho por um dia.

Volto para casa.

Quase sem respirar.

Respirar dói muito.

Continuo muito mal.

Não tenho condições de trabalhar.

Preciso de outro atestado e de um médico que não me diga que estou com gripe e que posso trabalhar.

Eu tenho noção que estou com algo mais grave e que por isso não tenho condições de ficar exposta ao estresse e ao mau tempo.

Enfim, estou segura, apesar de toda a dor e mal estar: neste médico eu confio.

Espero bastante para ser atendida.

Olho para as minhas mãos percebo o quanto as minhas unhas estão mal cuidadas.

Nesse instante percebo o quanto seria ruim se eu morresse agora com as unhas quebradas desse jeito.

Morrer é inevitável, contudo manter as unhas bem cuidadas é possível.

04/09/2.010

“Us” gurias

“Para Andrea – minha segunda melhor amiga de infância.

Sempre a considerei como uma segunda melhor amiga de infância.

Os pais vieram morar no bairro Cruzeiro do Sul, perto da minha casa, onde já estavam os avós, os tios e um irmão do avô que era solteirão.

Ficamos amigas.

Eu gostava das brincadeiras que conhecia ou inventava, eram totalmente diferentes das que eu conhecia.Uma delas era brincar de vender melancias.

O Alex – o irmão mais velho da Andreia – era quem comprava porque tinha força por ser menino. Eu as vendia e quem sobrasse eram as melancias, geralmente, eram minha irmã e a Andreia que ficavam de cócoras esperando ser escolhida pelo comprador, que antes de comprá-las dava um toquezinho de leve na cabeça, coisa que víamos meu pai fazer com as verdadeiras melancias, para verificar se estavam maduras, antes de retirá-las da plantação.

Eu gostava mesmo era de comer farinha de mandioca com açúcar. O gosto é horrível, mas a brincadeira era legal.

Quando ia a nossa casa e não estávamos pelo pátio ou na casinha montada nos fundos de casa brincando, era obrigada a perguntar por nós para minha avó ou a minha mãe, mas nunca se referia a nós pelo nome, erámos sempre:

– “Us” gurias!

Certa vez a notícia:

– Vamos voltar para Morro Alto.

No fundo eu sabia que ela seria para sempre uma amiga reserva de infância, por isso nunca abandonei a antiga amiga que eu tinha antes de conhecê-la.

16/10/2.020

Popularidade abaixo de zero

Por: Josaine Airoldi

Levanta a mão a menina que quis ser popular na escola!

Sempre quis ser popular.

Acho que toda menina deseja isso.

Foi o que sempre pensei.

Poderia ser qualquer coisa:

Ter algo para contar.

Ou para quem contar.

Ser a mais inteligente.

Qualquer coisa servia…

Ah! Mas tinha coleguinhas que eram bastante populares.

Ela era muito bonita e…

Havia o pedágio que ela cobrava das demais meninas da Escola para que pudessem usar o banheiro.

Qualquer coisa servia.

Quem não tinha como “pagar” passava por debaixo de suas pernas abertas.

Certa vez fui convidada para ir a sua casa após a aula. Nunca cheguei. Embora fosse perto, mas não foi porque era na direção contrária ao meu trajeto.

Estávamos indo, eu extremamente feliz por conseguir esse convite.

Quando…

Um carro para de repente. Um homem sai correndo. Junta desesperado um menino do chão coloca-o no carro. Sai em disparada. Então vemos outro menino completamente abalado, sem entender direito o que havia acontecido. Ficou assim o resto o ano ou da vida, não sei.

Às vezes, vejo essas imagens e me pergunto e se fosse em outro dia…

Na época e bem depois só tive uma amiga de infância.

Ela era muito popular.

Todos gostavam dela.

Exceto a sua família. Era adotada e parecia que tinha que pagar eternamente por ter sido acolhida, mas na minha família ela sempre tinha vez.

Certa vez encontrou um, penico.

Isso mesmo um penico no meio do lixo perto da escola onde estudávamos.

Não teve duvida. Lavou-o. Deixou secar e saiu com ele na cabeça. Todos riam de sua atitude.

Eu?

Estava com ela.

Minha quase xará…

Nunca me esqueci dela.Fez xixi na sala de aula.

Recordo dela em pé.

Apontando para o chão.

Virou assunto na escola.

Todos condenaram a professora Beatriz.

Afinal, ela tinha pedido para ira ao banheiro.

Por muito tempo foi assunto preferido da escola.

Ela era alta, rechonchuda e…

… A preferida dos que não levavam lanche.

Ela levava: quase meio quilo de pão caseiro:

– Minha mãe é quem faz! – dizia sempre, orgulhosa.

O pão em questão era recheado com salame e queijo, talvez margarina ou outra coisa qualquer.

O lanche era devorado com os olhos por muitos.

Repartia? Claro! Com os “irmãos.”

Não como os de verdade. Era filha única. Os irmãos eram dois colegas que a convenceram brincar que eram irmãos na hora do lanche e somente nesse momento. Então ela sorria um sorriso gordo.

Eu olhava aquilo não acreditando, como poderia ser tão burra de acreditar num história dessas. Parecia que o pão não tinha fim.

Eu os observava. Ela se comprazia em barganhar com eles. Não era o lanche que eu queria.

Ela…

…Tinha uma história triste da qual só recordo que morava com a madrinha numa casa muito bonita, perto da escola.

A madrinha lhe proporcionava tudo que uma garota naquela idade e naquela cidade poderia desejar.

Tinha todos os produtos que apareciam: “Os Menudos”.

Lembro-me também que sempre dizia:

– Máquina lava! – enquanto jogava futebol, descalças, usando nos pés apenas meias alvíssimas.

Eu nesse momento só pensava: será que ficarão novamente branquinhas essas meias…

Acho que isso não importava a ela.

Apenas, por alguns momentos e por razões completamente inusitadas, inesperadas ou não propositais fui o “centro” das atenções dos meus “coleguinhas” de escola.

Certa vez, o bilhete…

Era para a professora – raríssimos, mas esse existiu.

Velório em Porto Alegre.

Tenho que sair mais cedo.

Eu não iria ao velório.

Eu tinha que estar em casa para ajudar no quê, eu não recordo.

Também nunca compreendi o porquê do bilhete ter sido lido em voz alta. Enfim…

As meninas, todas, sentadas em volta de mim – eu recordo muito bem.

Queriam saber detalhes a respeito do velório de um primo que nunca conheci.

Tinha pouquíssima informação. Tinha que estar em casa mais cedo. Não tinha com responder a tantas perguntas. Lamentei por muito tempo.

Fui embora mais cedo desejando que aquele momento durasse para sempre.

Certa vez fui para a escola: vestida para arrasar…

A roupa era da minha tia, que resolveu brincar de boneca comigo.

Cheguei à escola.

As meninas ficam curiosas querendo saber onde tinha comprado.

Ainda atordoada e surpresa com tantas perguntas respondia meio débil a todas:

– Não é minha, é da minha tia.

Foi um momento estranho e mágico ao mesmo tempo.

Devolvi a ela agradecida por ter me proporcionado aquele momento em que todos os olhares se voltaram para mim ou para a roupa que estava vestindo, para mim não importava muito: fiquei popular na escola.

Ela, tempos depois deu a saia azul com bolsos e a blusa branca com detalhes coloridos para a minha irmã.

Sempre quis saber: por que não para mim?

30/ 06/ 2.010

Unhas de bruxa

Por: Josaine Airoldi

“Criança não trabalha, criança dá trabalho” – Arnaldo Antunes

Desde criança cuidava de outras crianças para ajudar em casa.

Éramos pobres, mas ela era mais que eu; por isso acho que sempre teve condições de se sobressair melhor na selva que é a escola, pois lutava a cada dia para sobreviver às adversidades de uma infância desprovida de infância.

– Só loucos para andar de bicicleta nessa chuva. – Comentei certa ver ao ver um senhor passar de bicicleta. – Não são só loucos que fazem isso, quem precisa também. – Comentou secamente.

Então percebi que aquele que tinha passado por nós era o pai dela. 

Fiz o comentário mais para ter o que falar do que qualquer outra coisa. Ela tinha esse poder sobre mim. Sempre conseguia fazer com que me sentisse uma perfeita idiota.Estudamos vários anos juntas nas mesmas turmas. A escola era muito pequena e não havia opção de escolha e não tínhamos noção que teríamos algum direito se tivéssemos opções.

Na quinta série formávamos um quarteto: Eu, ela, Margarete e Maria Aparecida. Era a primeira vez que eu me sentia como parte de um grupo. 

Certa vez estávamos jogando vôlei no pátio da escola. De repente o menino mais bonito da escola incluiu “mor” a letra a – a última letra do seu nome dela, criando a palavra: Claudiamor e não contente ficou repetindo, para que ela não tivesse dúvidas do que queria dizer. Fiquei com muita inveja, pois não bastava jogar bem, tinha que atrair a atenção daquele que tinha os olhos mais lindos do mundo e o nome de Ângelo.

Conversávamos muito sobre quase tudo e principalmente a respeito do nosso futuro escolar. Antes que o ano terminasse Maria Aparecida foi embora para outra cidade. Não foi naquele ano que implantaram a sexta série. Margarete se “casou” e não nos seguiu. Nunca mais soube nada a respeito delas.

Nós seguimos. Estudamos muito Matemática na parada de ônibus quando ficamos em recuperação na sexta série.

Desistimos da sétima série após longa greve dos professores, embora não combinado eu não voltei e ela também não.

Foi bom; pois ao retornarmos no ano seguinte encontramos a Angelita com a qual conversamos e rimos muito quando íamos a pé para casa, para economizarmos o dinheiro da passagem e para ficarmos mais tempo juntas.

A oitava série estava passando e eu sempre com a ideia fixa que ela seria uma excelente jogadora de vôlei como a Ana Moser – quem foi criança nos anos 80 e gostava de esportes saberá imediatamente de quem se trata. Por mais que tentasse não conseguia jogar como ela. Ela era a melhor desde sempre.

Quando começou a namorar seguiu os preceitos do lugar que as gurias de Tramandaí aos 15 anos namoravam cobradores de ônibus, aos 18 namoravam garotos que estavam servindo no exército e dali por diante valia o que viesse.

Primeiro foi Edson e depois foi o Claudio, ambos, cobradores da empresa de transporte Dindinho.

Por coincidência nos encontramos no mesmo emprego. Estava de férias da escola, estava no Segundo Grau – cursava Magistério e precisa trabalhar no verão. Passava em frente de uma padaria quando li o cartaz: “Precisa-se de balconista,” como eu tinha certa experiência de empregos anteriores; achei que poderia dar conta deste.

A proprietária era uma ex-professora de Português nossa da época em que estudávamos juntas.

O emprego era horrível; mas a companhia e a destreza dela nas realizações das atividades pertinentes a nossas funções tornaram-no menos deplorável.

O verão acabou. Voltei a estudar. Perdi o contato com ela.

Ao passar pela padaria em que eu tinha trabalho a encontrei. O mesmo olhar de fibra. Rapidamente conversamos. Fiquei sabendo que havia casado e descasado. Tinha uma filha se a minha memória não me trai.

O que eu não esqueço é de suas enormes unhas. Unhas de bruxas – eu dizia – quando brigávamos.

Unhas de uma menina que teve que crescer antes da hora, é assim que me lembro dela: com carinho e com afeto.

14/10/2.010

Aos domingos

Por: Josaine Airoldi

Visita era sinal de refrigerante na minha casa.

– Vão buscar. – Ouvíamos sempre.

Íamos, todos correndo com as garrafas balançando dentro das sacolas.

Voltávamos o mais rápido possível. O refrigerante – “esquentava”.

Não tínhamos geladeira e por uma razão simples, talvez, não tínhamos luz elétrica.

De repente, a garrafa cai.

Espatifa-se no chão.

Não consigo evitar.

Fiquei por alguns segundos olhando o líquido se esvaindo no asfalto, imaginando o que iria me acontecer quando chegasse sem a encomenda completa.

Invento então: A garrafa explodiu na minha mão.

Fiquei com a cabeça baixa esperando que alguém viesse em meu socorro e concluísse o meu pensamento…

Milagrosamente alguém veio.

Estou salva, pelo menos dessa vez.

– Hoje em dia isso acontece muito: as garrafas explodem.

Sinto a garrafa se esvaindo entre os meus dedos.

Vejo os cacos no meio do caminho.

Domingo almoço na minha casa.

Essas garrafas…

                                          30/06/2.010