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Lembrar para não esquecer…

Contos ou crônicas

Embruxada

Minha irmã caçula herdou do meu pai os olhos azuis que tanto a minha mãe desejou durante a gravidez e também as crises de asma do meu avô. Foi benzida por todas as curandeiras da cidade, inclusive minha avó que tinha o costume de “coser” os males de quem precisasse e pedisse. Eram ensinadas inúmerasContinuar lendo “Embruxada”

O sorriso da Gracinha

Para a turma de 84 – Escola Thomaz! Ela sempre foi muito bonita e tem um sorriso encantador. Em todas as aulas esperávamos a mesma cena: ela ir apontar o lápis e próximo à lixeira ficar rindo baixinho. Do que ria? Não me lembro. Acho que não tinha motivo. Talvez, o que o gostávamos eraContinuar lendo “O sorriso da Gracinha”

Os tiradores de sangue

 Esqueça o homem do saco, o bicho papão, a mula sem cabeça e todas as formas de amedrontar às crianças, nenhum deles me provocava medo.

Eu receava ser atacada pelos tiradores de sangue. Não se trata de vampiros, embora eles também não existam.

Não sei de quem eu tinha mais medo se da minha mãe ou se deles.

Na volta da escola era sempre a mesma coisa. Se eu a seguisse, desobedeceria minha mãe. Se eu não a seguisse ela os acionava.

Bravamente e solitariamente eu seguia pelo caminho indicado pela minha mãe enquanto ela chamava: Os tiradores de sangue.

Embora eles nunca tivessem aparecido, eu os temia.

Ela era assim sempre tinha uma brincadeira, uma história ou uma solução para tudo.

Uma das nossas brincadeiras consistia em brincávamos de “casinha” numa casa de verdade. Eu me sentia de certa forma envergonhada; pois era a minha casa que limpávamos e eu não conseguia entender o porquê eu não a mantinha a limpa e organizada como naqueles momentos.

 A filha dela era sempre a minha irmã. Era em quem dava banho, colocava bastante talco e após vesti-la com a sua melhor roupa, saíamos para passear. Ela sempre com algum sapato ou sandália de salto alto da minha tia.

 Às vezes, eu era a professora; ela a mãe preocupada.

 Certa vez quando veio buscar o boletim da filha eu seriamente usei uma expressão corriqueira o cotidiano escolar:

  – Sua filha passou raspando.

Começaram a rir sem parar. Primeiro ela depois a filha que nunca tinha frequentado a escola e não fazia a menor ideia o que significava o que eu havia falado. Isso foi o que me dava mais raiva: o poder que tinha para influenciar as pessoas.

 Fiquei profundamente chateada, ora não era para brincar com a brincadeira.

Quando era na sua casa as brincadeiras eram outras. Fazíamos orelhas de macaco – era para serem bolinhos fritos.

Atrapalhávamos o namoro da minha tia com um dos irmãos dela. Como não tínhamos luz elétrica eles gostavam de namorarem no escuro ou tentarem pelo menos.

 Queimar papel higiênico sujo, certa vez quase incendiei a “patente” não havia banheiro.

 Quando brincávamos trocávamos de nome. Tínhamos nossa amiga e vizinha imaginária. Tudo isso era invenção dela.

 Também, brigávamos muito, principalmente quando ela queria fazer aquilo que eu não podia fazer. Eu sabia que na hora de ser responsabilizada era eu quem tinha que arcar com as consequências porque ela estaria longe. Como éramos três, é claro que eu sobrava. Às vezes o meu primo me defendia e batia nela com uma toalha de um modo que somente ele conseguia. Nunca brigamos fisicamente, mas eu gostava quando ele se vingava dela por mim embora eu achasse exagerada atitude dele em relação ao que havia acontecido; porém era bom me sentir protegida.

Talvez seja por isso que ela usou seu olhar malicioso para insinuar que eu tinha feito algo com ele que não fiz. Se eu soubesse que isso somente aconteceria dez anos depois não teria ficado tão magoada e não teria ficado quase um ano sem conseguir olhar para ela.

 Só voltei a conversar com ela depois que comunicaram – ela e a mãe – que estava casada com o enteado de um dos irmãos. Ela estava então com quatorze anos e ele com dezessete.

 Durou pouco o casamento. Não foi por ela aparecer sempre com o olho roxo ou porque moravam no galpão nos fundos da casa da mãe dela que adaptaram para morarem, foi por que o melhor amigo do marido lhe proporcionaria uma vida melhor.

 Com certeza, ela foi minha melhor e pior amiga de infância que eu tive.

                                                                                              27. 11. 2010


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