Brincadeira de criança

Por: Josaine Airoldi

Estávamos conversando sobre frivolidades e saboreando um excelente vinho tinto, quando ela começou a falar sobre uma prima distante.

Ela era extremamente competitiva e, às vezes, chegava a ser chata. 

Sempre quis ser a melhor em tudo. 

Não suportava aquilo que não conseguia compreender ou desvendar.

As brincadeiras tinham que ser as que conhecia. 

Para mim ela fazia parte de outra realidade e era para ser prazerosa nossa convivência e não uma eterna competição e chateação.

Tudo tinha que ser do seu jeito, senão não participava das brincadeiras. Como morávamos longe e nos víamos em certos momentos a suportava.

Quando não conseguíamos ou não gostávamos do que propunha logo nos desinteressamos, mas para ela era questão de honra e como contava com o apoio da irmã continuava com a brincadeira como se nada tivesse acontecido.       

Eu me dava melhor com uma das irmãs dela com a qual sempre convivi tranquilamente.

Quando não estava com ela gostava de jogar futebol com meu pai e os três primos. 

Era o momento em que demonstravam que a personalidade do pai não tinha determinado totalmente a deles. 

Eram iguais aos demais meninos que eu conhecia.

Era a que mais recebia atenção do meu pai que acho que a acolhia e a todos os sobrinhos por sentir o quanto o irmão era seco com os filhos. 

Sempre que a visitávamos, meu pai fazia questão de parar num mercadinho próximo a casa deles e comprar balas para os sobrinhos e escolher o melhor e mais bonito pão d’água de quarto quilo (expressão bastante comum na época) para presenteá-la. 

Ela recebia aquele embrulho com os olhos brilhando e agradecidos. 

Aquele pão representava o afago que seu pai nunca lhe dava ou nunca lhe deu, apesar de ser a filha caçula e ser a preferida dos seis filhos.

Eram bons aqueles momentos na casa dos tios. 

O almoço ou o jantar, apesar da austeridade imposta pelo meu tio, era uma ocasião especial por causa do sabor dos pratos que degustávamos: a galinha caipira com bastante molho, a polenta que só a minha tia sabia fazer, a massa caseira, café fumegante, o pão caseiro. Tudo preparado no fogão à lenha. 

Ganhávamos “ovos” que nós, eu e minha irmã comíamos rapidamente sem se preocupar com a película que os envolviam, enquanto elas tentavam retirá-los.

Ela sempre implicava com a minha irmã apesar de não ter noção de que sentimento era aquele que exalava por seus poros, sabia que a fixação para que a minha irmã tivesse resultados ruins na escola era exagerada.

Hoje sei o nome disso: inveja.

Era inveja do amor e carinho que tínhamos do meu pai.

Era inveja da maneira como seus irmãos a tratavam: como uma bonequinha.

Era inveja de um amor que nunca recebeu.

Certa vez quase enlouqueceu quando não conseguia decifrar o código que tínhamos para descobrir qual era a palavra combinada numa brincadeira banal de adolescentes. 

Nos fez repeti-la várias vezes. 

Ah! Como me diverti vendo sua expressão de angústia e nos acusando de não revelar que havia descoberto o segredo apesar de já ter adivinhado. 

A brincadeira para mim era quase uma revanche, por todas aquelas brincadeiras tolas que realizei para agradá-la ou para não desagradá-la durante anos.

O vinho acaba, mas continuamos a conversa, afinal as recordações boas ou ruins, não.

16/10/2.010

Meu primeiro amor

Por: Josaine Airoldi

Tudo começou quando a Nane me impôs que eu tinha que escolher algum menino para gostar.

Eu não gostava de nenhum menino, talvez por ter apenas nove anos. 

Como nunca gostei de ser a diferente no ninho, comecei a observar os colegas de turma.

Leandro era muito chato, por ser repetente achava que sabia mais que a professora.

Gilmar – o Batatinha –  acho que o apelido era em referência ao personagem do desenho animado: Manda Chuva. – era muito baixinho.

Jair era muito alto, feio e muito mais velho que eu. 

Luciano era muito mau educado.

Genésio sem graça.

Jerônimo era muito extrovertido. 

Hélio vivia ficando de castigo por ser mau-comportado.  

Então, tinha Adriano.

Adriano parecia perfeito: franzino, loiro e educado.

Anunciei em alto e bom som para as amigas que tinha escolhido um menino para gostar, mas não diria o nome, morreria de vergonha, se ele soubesse.

Qual não foi meu encantamento ao ler o seu nome de amigo secreto.

Minha avó providenciou o que eu daria.

Estava radiante até constatar que teria que entregar um talco Pompom para o menino dos meus sonhos.

Mas, na falta de outra alternativa, entreguei o presente sem olhar a sua reação.

Adriano nunca ficou sabendo da minha paixão por ele.

Deve ser por isso que, chegou na festa junina de braços dados com a Hélia – irmã gẽmea do Hélio – de um lado e a Geni do outro.

Quando vi os três chegando alegres e sorridentes, subitamente comecei a me sentir cada vez mais estranha dentro daquele vestido enorme para meu tamanho e a ausência de saia de armação ficou mais evidente.

Não aguentei a humilhação e fui embora.

Adriano não tinha como saber – eu pensava.

04/02/2.020.

Não era sobre isso que queria falar…

Por: Josaine Airoldi

Às vezes, basta tentar um caminho ainda não percorrido.

Estou há dias tentando concluir um curso on-line e não consigo.

Já fiz quase tudo e não consigo receber a resposta: 100% concluído.

Por falta de atenção, talvez, ou por má-vontade eu abri páginas em excesso e não consigo fechá-las.

Não quero pedir ajuda.

Tenho vergonha de explicar para algum desconhecido que eu abri oito páginas indevidamente, ou seja, eu consegui repetir o mesmo erro por oito vezes.

Eis, então, que sigo a ordem dos fatores e qual não foi minha surpresa: eureca!

Consegui.

Tão simples.

Oh! Não, faltou luz!

Continuo tateando as teclas, mesmo no escuro, preciso aproveitar que estou inspirada para escrever.

Afinal, para alguma coisa tem que servir ter morado tantos anos em um lugar sem luz elétrica.

Minha mãe dizia que eu era teimosa igual a porco de cangalha.

Cangalha eram três pedaços de paus amarrados com arame em forma de triângulo que eram colocados nos porcos para que estes não fugissem do cercados onde ficavam.

Mesmo assim sempre tinham os que não se intimidavam com tal artifício e tentavam sair, ficando presos…

Afinal, era para isso que as cangalhas serviam…

Tem momento que me sinto assim: teimo em algo que, apesar de perceber que não está certo, eu continuo…

Não consigo parar ou consigo e opto por prosseguir…

É como se a insistência fizesse tudo se resolver.

Claro, posso culpar o déficit de atenção, que faz um estrago em qualquer vida por aí, se não tratá-lo corretamente…

Ai se alguém segura o leme / Dessa nave incandescente… – dizem Kleiton e Kledir na minha mente, que já se desviou do que estava fazendo…

27/04/2.020

Ela

Por: Josaine Airoldi

Ela era sempre indiferente à minha admiração, embora linda e perfeita.

Todos os dias eu ia visitá-la.

Ela era inacessível para mim

Percebi isso quando me dei conta que o seu valor era dez vezes o que eu tinha entendido, ou seja  não eram R$ 14,50 e sim R$ 145,00 – se fosse nos dias de hoje. 

Pior de não poder tê-la, foi vê-la ser de outra criança, que nem mesmo a desejou como eu.

Os adultos podem ser cruéis de vez em quando: de todas as bonecas existentes na loja tinha que escolher a única que desejei, mesmo nunca tendo ficado sabendo disso.

Tudo bem que a criança em questão era sua neta e eu apenas a filha da sobrinha do marido, que estava passando uns dias de férias em sua casa.

Ela ficou para sempre entre as coisas que sempre desejei e nunca tive.

25/12/2.020

Qual é o significado?

Por: Josaine Airoldi

… E quando vejo o mar há algo que diz que a vida continua e se entregar é uma bobagem… – escreveu certa vez Renato Russo.

Depressão é coisa séria.

Quando me sentia muito mal costumava ir para praia apreciar o incansável ir e vir das ondas.

Às vezes, tinha vontade de entrar mar adentro, mas a ideia de perceber que estava num caminho sem volta fez com que eu não concretizasse esse desejo, se é que seria um desejo.

Meu psiquiatra me diz que desejos como esses têm relação com a vida uterina.

Quero saber mais sobre isso. 

Ele, então, me pergunta se nunca tinha lido sobre isso?

Respondo que não.

Então, me manda pesquisar na internet.

Ora se fosse para pesquisar no Google eu não estaria ali, tentando entender o que me diz.

Ele me explica novamente que desejos suicidas de maneiras muito trágicas como: atropelamento ou afogamento tem haver com a vida uterina.

Saio do consultório sem entender a relação.

Pesquiso sobre o assunto e encontro a mesma explicação.

Enfim, depressão é coisa muito séria e quase sempre tem relação com insatisfações profundas, que emergem do subconsciente devastando a vida no presente.

02/02/2.020

Uma história puxa outra!

https://lembrarparanaoesquecerinfo.data.blog/2020/08/15/devaneios-a-beira-mar

Zé Gralha

Por: Josaine Airoldi

– Meu nome é José Oliveira – Essa é uma das frases que sempre dizia.

Ainda mais quando descobriu que chamávamos de Zé Gralha.

Não me recordo o que motivou  tal acunha.

Sei que não gostou nem um pouco.

Ele aparecia quando queria e sumia da mesma maneira.

Agia como se fosse imprescindível os seus préstimos – de certa forma era.  

Sempre trazia nas costas um saco com macega – material utilizado por nós: minha avó, minha mãe, minha irmã e eu para fazermos artesanato.

Zé Gralha era um homem muito bonito, mas a cachaça – raramente ficava sóbrio –  e o excesso de exposição ao sol envelheceram ele antes do tempo.

Certa vez, depois de um longo período ausente reapareceu.

Estava vivo para nosso espanto.

Ríamos muito lembrando que havia sido encomendado uma missa em homenagem a sua memória.

O fato é que havia recebido uma indenização generosa por ter sido atropelado enquanto vagava solitário por uma estrada qualquer.

Mesmo assim retornou – como sempre precisava de um lugar para ficar por um tempo.

Um dia foi embora e nunca mais voltou…

 06/11/2.021

Uma história puxa outra!

https://lembrarparanaoesquecerinfo.data.blog/2020/07/04/santa-louca

Amigas para sempre?

Por: Josaine Airoldi

Esperteza ou inteligência.

Eu, a inteligente.

Ela, a esperta. 

Quem tem mais chances na vida adulta?

Eu sempre achei que fosse a esperteza, pois se tem ou não tem. Não é algo que se adquire estudando.

Mesmo assim, para mim, gostar de estudar era a única coisa que me tornava superior a  ela. 

Ouvi certa vez após, relatar esse pensamento a um amigo na sala dos professores:

– Quem é ela atualmente?

Não soube responder,  mas subitamente lembrei-me de uma conversa que tivemos  numa sala de espera de um consultório:

– Tenho um filho de sete anos.

Combinamos que eu seria a madrinha de seu primeiro filho ou filha – enquanto ela batizava minha boneca.

– Eu não casei. Não tenho filhos… Fiz faculdade…

Parece que é uma obrigação: nascer…. Crescer… Casar…  Procriar… e Morrer…

– Moramos com a mãe.

De todos os filhos e filhas, a única que ficou cuidando da mãe foi ela que sempre soube que embora tivesse sido acolhida – por aquela família – não era bem-vinda.

– Continuamos morando todos juntos.

– Lembra daquele dia de chuva.

– Lembro sim.  

Até hoje me pergunto – o poderia ter sido diferente se tivéssemos esperado alguém nos vir buscar. – pensei, mas não falei; com certeza não entenderia. 

– E as gurias e teu pai?

– Estão bem.

-Tem que aparecer lá em casa para colocarmos a conversa em dia.

– Qualquer dia eu vou.

– Faz tempo que a tua mãe se foi.

– Faz sim. 

Os médicos nunca souberam dizer qual foi a causa, escreveram simplesmente: falência múltipla dos órgãos… –  estava me preparando para dar essa explicação, mas não perguntou.  

– Está demorando…

– É!

Não fomos amigas para sempre…

Nós nos perdemos? 

Não, seguimos caminhos óbvios.

Eu segui estudando.

Ela continuou fazendo o que sempre fez de melhor desde criança: limpar e organizar a casa dos outros.

Noto o quanto é feliz na simplicidade de saber viver bem com o que tem.

Realmente, a sua esperteza sempre me incomodou.

– É sua vez. – diz a recepcionista sorrindo.

30/06/2.010

Uma história puxa outra:

https://lembrarparanaoesquecerinfo.data.blog/2020/05/13/os-tiradores-de-sangue/

A descoberta da inocência

Por: Josaine Airoldi

– Quer ficar no meu lugar? O trabalho é simples. O lugar é pequeno. Não há muito a ser feito.

– Quero sim! 

Cheguei explicando…

– Minha prima me mandou.

– Ótimo! – respondeu entusiasmado. 

– Posso começar amanhã mesmo à tarde. Estudo pela manhã – respondi esperançosa, era uma ótima oportunidade para uma garota de 17 anos.

Rapidamente me mostrou tudo e explicou as minhas atribuições.

Se ateve numa recomendação:

– Isso é importante: anotar aqui tudo o que não tivermos, caso alguém procure.

Olhei o papel ao lado do caixa e pensei: isso é fácil.

No outro dia, me deu as boas vindas e saiu dizendo que voltaria logo em seguida, o que não aconteceu nem naquele dia nem nos demais.

Voltando quis saber:

– Tudo bem por aqui. 

– Tudo! – respondi sorrindo, tentando demonstrar tranquilidade.

– Algum medicamento a ser encomendado?

– Está anotado.

Olhando minhas anotações…

– Esse eu preciso encomendar. 

– Esse não, porque nós temos.

Depois que me recuperei do susto – pois não poderia demonstrar incompetência – respondi:

– Eu procurei em todos os setores: nos comprimidos, nos injetáveis,… E nada.

– Não procurou aqui nesse balcão.

Olhei aparvalhada.

– Eu nunca achei que procurasse esse produto pela marca…

O fato é que nenhuma figura de linguagem foi capaz de fazer com que ele não percebesse que eu não sabia o que era Jontex.

05/01/2.010

Aquele olhar

Por: Josaine Airoldi

O olhar dele era digno.

Não sei se me viu.

Desviei os olhos rapidamente. 

Talvez por ele. 

Talvez por mim.

Talvez por nós.

Certa vez, ao percebê-lo finalmente, deixei-o entrar na minha vida, porém  ao olhá-lo com profundidade, vi o que não desejava, e não o quis mais.

Não aceitou e reagiu da pior maneira: bebendo…

O que eu fiz?

Procurei me afastar cada vez mais. 

Fiquei sabendo – depois – pela tia que o socorreu – que não tinha sido a primeira vez que era internado, por causa da dependência de álcool.

Disse, também, que não tinha culpa pelo comportamento auto-destruivo do sobrinho.

Agradeci e procurei pensar em outra coisa naquele dia.

Embora, até hoje, eu saiba que não tinha o  direito de deixá-lo achar que poderíamos dar certo juntos.

Mas aquele olhar…

 02/07/2.010

Uma história puxa outra!

Apenas escrevo…

Por: Josaine Airoldi

É tarde.

Está extremamente frio.

É sábado.

Estou sozinha em casa.

A televisão não me satisfaz.

Não consigo dormir.

A leitura de qualquer livro não me atraí.

Então o que faço?

Escrevo sem parar.

Começa a chover.

Continuo a escrever para preencher um vazio inexplicável que me assola e me invade.

Enquanto procuro um motivo para escrever, vou vivendo…

Escrevo para esquecer de lembrar.

Apenas escrevo…

17/10/2.021

O coitadinho

Por: Josaine Airoldi

Eles foram morar conosco: minha mãe, meu pai, minhas irmãs, minhas tias, avós, por certo tempo, quando a mãe dele ficou doente e os outros filhos estavam criados e moravam em Porto Alegre. 

Ele era terrível. 

Estava sempre fazendo o que não devia, na opinião dos adultos.

Para ela, ele era sempre o coitadinho. 

Ela o protegia, por mais que aprontasse, e ele me protegia.

Eu o adorava por isso.

Quando minha irmã do meio não se adaptou de jeito nenhum à escola e voltava para casa dizendo que não havia aula. Então, era comum eu ter que levá-la novamente. Ele sempre se prontificava para fazer isso no meu lugar, mas tinha que ser na bicicleta da minha tia. O que irritava profundamente a minha avó que apesar disso emprestava, após muitas recomendações.

Eu adorava ficar na sua companhia, não interessava fazendo o quê.

Certa quarta–feira chuvosa; recolhemos tudo que era possível interessar ao dono do Ferro Velho, colocamos numa carroça e ele vendeu.

Meu pai quase enlouqueceu quando descobriu a limpeza que nós realizamos no pátio de casa, mas só ele foi responsabilizado.

Esse é um dos dias que guardo com mais carinho.

Ainda posso sentir os pingos de chuva sob a minha pele e alegria de ter podido retribuir tudo o que fazia por mim.

Era comum, também, me ajudar a cuidar da minha irmã caçula.

Ele a enrolava com todo o cuidado, colocava-a no carrinho e a embalava até que dormisse e então podíamos completar juntos a revistinha: Coquetel.

Apesar de termos quase a mesma idade, estranhamente me sentia protegida, sempre quando estava por perto.

Quando adolescente encantava as meninas da escola, e a mim também, embora nunca soube disso…

16/10/2.010

Com carinho e afeto

Por: Josaine Airoldi

Eu nunca fui escolhida para nenhuma apresentação nos tempos de escola.

Nunca tive o perfil predileto das professoras.

Nessa apresentação todos poderiam participar: era para as mães.

Todos compraram um cartão com uma mensagem muito bonita, que eu lia sempre: “Retrato de mãe” – era a história de um viajante que agradecia a sua mãe por tudo o que havia lhe ensinado…

Minha mãe tinha outros planos para aquele dia – me levar pela primeira e única vez para tirar tiririca do brejo – material com o qual fabricava as peças de artesanato. 

Enquanto sacolejava na carroça ia imaginando como estava sendo a apresentação.

Desde então a canção ficou para sempre na memória, atualmente um pouco modificada: “Eu tinha tanto pra lhe falar; mas só com palavras eu não sabia dizer: como era grande o meu amor por ela que se foi cedo demais…”

23/07/2.020

O almoço

Por: Josaine Airoldi

Hoje parece engraçado a história que minha amiga nos conta enquanto saboreamos um delicioso almoço feito por ela, mas na época em que ocorreu o fato não foi – tanto que    percebo o quanto isso ainda a incomoda, apesar das inúmeras risadas que ecoam ao narrar o fato acontecido.

Mesmo sendo crianças, o pai levava-os para a pedreira – trabalho árduo, mas necessário em vista das poucas condições de criá-los como desejava.

Era tudo escasso: alimentação, afeto, inocência…

Certa vez o irmão, que na falta de condições de assumir outra tarefa por ser “doido” – era encarregado de esquentar o almoço, acrescentou umas tábuas recolhidas próximo de onde estavam, para que o fogo não se extinguisse.

De repente, um cheiro forte foi sendo espalhado pelo ar. 

Foi então que perceberam que se tratava de restos de um caixão que estava ardendo em chamas e impregnando a comida e impossibilitando-a para consumo.

Naquele dia as frutas que, pacientemente esperavam para serem colhidas por quem se interessasse por elas, serviram de almoço.

A loucura te exime de um sofrimento que a lucidez não permite

Às vezes, ter consciência pode ser cruel, pois nos faz guardar na memória coisas que não se quer lembrar, que afloram sem consentimento ao ser aguçado por uma situação. 

01/02/2.020

Aquela que corta o bolo

Por: Josaine Airoldi

Aniversário na escola. 

Tem bolo na hora do intervalo, trazido às pressas.

Todos reunidos na sala dos professores na hora do intervalo.

Uns se certificando de quanto ainda restam de seus 15 minutos de descanso.

Outros, meio constrangidos por não saber que havia alguém de aniversário.

Alguns indiferentes a tudo em volta, mas tentando se manter interessados no acontecimento e se possível saborear a iguaria a tempo.  

De repente a pergunta ecoa no ar:

– Eu, cortar o bolo?

Já presenciei por diversas vezes essa situação, embora a contemplada queira fingir surpresa, com a importante missão: cortar o bolo e distribuí-lo aos demais; a pergunta soa mais como uma afirmação.

Há pessoas que se fazem necessárias… 

Elas sempre têm o que comentar em qualquer ocasião. 

Elas sempre estão à vontade em qualquer ambiente. 

Elas estão sempre atentas às necessidades dos demais.

Elas são bem-vindas em todos os grupos, tribos, seitas…

São aquelas que cortam o bolo…

30/06/2.010

Eu …

Por: Josaine Airoldi

Está frio.

Estou novamente sozinha em casa.

Às vezes, gosto desse espaço: físico e mental.

Outras vezes, não.

Sou bicho esquisito.

Sou bicho estranho.

Sou bicho inconstante.

Sou bicho não mutante.

Às vezes, paixão.

Às vezes, solidão.

Sou o que me proponho a ser?.

Ora sim, ora não.

A cada manhã me questiono por que eu?

A cada manhã me questiono o que tenho a fazer?

A cada manhã me questiono o que quero realmente?

A cada manhã, novo recomeço ou eterno retrocesso?

28/09/2.010

Conversa de comadres

Josaine Airoldi

Certas feridas permanecem abertas por mais que o tempo passe. 

Ao culpar a tua mãe por todos os seus traumas isenta teu pai de toda responsabilidade.

Nesse eterno duelo entre a mãe má e o pai idolatrado há uma menina forte e determinada que se tornou uma mulher amargurada e fragilizada, que não consegue amar sem concessões, pois foi rejeitada, por todos aqueles que por quem esperava ser acolhida. 

Eu lhe digo isso, após me contar novamente que foi devolvida  pela família adotiva que ao saberem que uma vez registrada como filha teria direito a herança que pertencia aos filhos legítimos.

A família abastada não poderia permitir que tal absurdo acontecesse, uma vez que nem para a realização de serviços domésticos a guria servia, por isso depois de cinco anos sem nunca ter frequentado a escola era devolvida para a família biológica.

A mágoa aumenta ao relatar, outra vez, que o pai se sentiu muito humilhado ao mentir diante do juiz que não a havia dado para adoção e também porque perdeu o prazo para processá-los por tal fato tão cruel. 

A lembrança que tenho do teu pai é de um homem muito bonito, altivo, curioso, que não combinava com aquele ambiente quase agreste,  sem luz elétrica e sem água encanada…

Lembro-me, também que, enquanto ele se aprazia com nossa companhia embaixo de uma figueira frondosa naquele janeiro de sol escaldante a tua mãe: uma senhora de estatura média, rechonchuda, que apesar de estar muito feliz com a visita da filha estava sempre envolvida com alguma tarefa que necessitava ser feita, afinal a vida no campo não é tão simples como se imagina.  

– Já te contei que um dia meu pai quis ir embora. Queria conhecer o mundo e para isso bastava algumas peças de roupas e a gaita que lhe fazia companhia. – Digo que sim, mas ela continua falando.

– Minha mãe disse que ele poderia ir, mas que nunca voltasse, então, permaneceu ali, tendo outros filhos que tiveram que doar por falta de condições de criá-los.

– Todos voltaram conforme, minha mãe sempre dizia que iria acontecer ao nos ver partindo.   

– Eu usei tudo de ruim que aconteceu comigo como mola impulsora para chegar onde eu cheguei.

– Como que eu consegui? 

Sei que vais dizer que estou errada, mas a força e determinação que tens foram herdadas da tua mãe.

Ela finge que não entendeu e continua…

Para ela o importante não é o que eu digo e sim que eu ouça a sua verdade.

Então relata como manipulou uma pessoa muito importante no mundo dos negócios para que fizesse o que ela queria e assim conseguiu resolver o problema que estava incomodando o  alto escalão da empresa. Não estavam conseguindo vender um tipo de seguro oferecido por uma das mais importantes instituições financeiras do país.

– Ganhei muito dinheiro durante o tempo que trabalhei nesse banco.

– Tem coisas que nunca te contei, portanto não fique achando que me conhece.  

Ela fala em tom de revanche, por eu ter dito o que não quer ouvir. 

É justamente por isso que sou tua amiga durante esse tempo todo: sempre digo o penso sem me importar como digo.  

Embora, não consiga compreender ou aceitar, eu sou muito feliz com o que tenho: minha casa,  meu casamento, minha profissão, minha filha que é tua afilhada…

É no meu mundo que consegue desamarrar as amarras sociais que são tão preciosas para te manter no topo como gosta de achar que está. 

É no meu mundo que consegue ser o que realmente é. 

Mantemo-nos amigas por interesse mútuo. 

Eu sou a emoção, tu a razão. 

Uma equilibra a outra quando necessário.

Em vários momentos me fizestes enxergar a realidade, assim como te proporciono momentos de leveza e aconchego.

Afinal, amigas são para isso.

15/01/2021

O tio polícia

Por: Josaine Airoldi

São três irmãos. – Ela me conta.

Foram três bons amigos.  

São três histórias que ficaram guardadas com muito carinho.  

Moravam à beira do rio numa casa simples de madeira com a mãe e a avó.

Quando nos encontrávamos na minha casa que também era de madeira e muito simples, mas ficava a beira da rodovia, agiam como se estivessem em outra cidade.   

Sempre que passava uma viatura da polícia gritavam:

– Olha lá o tio polícia!

Quem os ouviam falar tinha a impressão que conheciam toda a incorporação policial.

Na verdade eles reconheciam apenas a viatura e por isso deduziram que dentro havia o amigo policial da mãe.

O mais velho era muito desengonçado e meio crianção.

Eu odiava quando me comparavam a ele.

O mais novo e o mais bonito dos três – era com quem minha irmã iria casar nas brincadeiras que fazíamos.

Sobrava sempre o do meio cujo nome não sabíamos, sempre o chamávamos pelo apelido.

Era o que sempre se metia em confusão.

Certa vez minha avó pediu que ele buscasse umas coisas para ela.

Ele foi – com má vontade – mas foi.

Embora tenha trazido o que foi solicitado, teve que voltar, porque minha avó não acreditou na história de que tinha sido logrado pelo proprietário.

Pegando-o pela mão, se dirigiram ao armazém para constatar o que já sabia: o troco foi entregue corretamente.

Se não estava com o menino onde estaria o dinheiro?

Estava entre a vegetação da estrada em dezenas de pedacinhos que o vento se encarregou de espalhar.

Assim como o dinheiro, a nossa convivência foi se dissipando aos poucos.

Cada um tratou de cuidar da sua vida, mas os bons momentos ficaram…

Os domingos que tomávamos porres com vinho misturado com água e açúcar.

O filme de kung fu que olhamos sentados amontoados,  mas super contentes por estar dividindo aquele momento.

O quanto eram gostosas as laranjas do céu que íamos colher na chácara onde moravam.

Quando olho a foto em que estamos abraçados em frente à cerca da minha casa sob o frio congelante de agosto, lembro-me o quanto é bom ter tido bons amigos na infância. 

Quando paro de anotar, por uns instantes, para olhá-la e dizer o quanto boas amizades são importantes, percebo que está com os olhos marejados de lágrimas.

Nada a mais a acrescentar…

20/11/2.010

Amanhã é dia de faxina

Enxaqueca infernal. 

Começou no início da tarde.

Achei que passaria rápido, mas me enganei.

Calor insuportável em pleno mês de julho. 

Não era para estar frio?

Depois de um dia exaustivo, enfim, chego em casa.

Lembro que hoje é dia de reunião partidária aqui em casa – coisas do meu marido.

Olho em volta, está tudo bagunçado.

Estão todos na sala conversando sem parar.

Ninguém se importa com minha presença.

A minha cabeça parece que vai explodir.

Tento dormir.

Levanto.

Acendo a luz.

Ficar quietinha no escuro não resolveu dessa vez.

Não tem jeito, me rendo ao salvador das que sofrem de enxaqueca – o remédio – no meu caso é o Cefaliv.

Começo a escrever sem parar.

A dor?

Continua.

A reunião também.

Amanhã é dia da faxina.

O sono, enfim, chega…

07/07/2.010

Ele e ela

Por: Josaine Airoldi

Ele se foi.

Ela ficou e pela primeira vez – depois de meses sendo corajosa – se permitiu chorar.

Ele se foi.

Ela ficou com a convicção de que tinha feito tudo que era possível para amenizar a sua dor.

Ele se foi

Ela ficou com todos os fantasmas a assombrando.

Ele se foi. 

Ela ficou observando as horas que iam passando e percebeu que não havia tempo para lamentações.

Ele se foi. 

Ela ficou com as últimas palavras dele ecoando na sua mente: por que é tão cruel?

Ele se foi.

Ela ficou e pensou que, talvez, estivesse se referindo ao câncer que se alastrou sem dó nem piedade e persistiu em não abandoná-lo.

Ele se foi.

Ela ficou com a certeza que demostrou gratidão por tudo que viveram juntos e compaixão pelo seu sofrimento, enquanto planeja o que fazer com todos aqueles equipamentos hospitalares, que estão ocupando a sua sala de estar.

Ele se foi.

Ela ficou com tudo o que restou: lembranças,  remorsos, angústias e incertezas…

Ele se foi.

Ela ficou com a pergunta que ambos faziam, sem obter resposta:  

– Por que comigo?

Ele se foi.

Amanhã será outro dia – ela pensou.

12/01/2.021

Uma história puxa outra!

https://wp.me/sbBYGl-eclipse

Feliz aniversário

Por: Josaine Airoldi

Criança gosta mesmo é de ganhar brinquedo.

Não venha com roupa maior para durar mais, que quando nos serve já está desbotada; ou com dinheiro para se colocar na poupança, o que geralmente não acontecia porque a mãe comprava mais roupas sempre dois ou três números maior do que realmente servia.

Criança quer ganhar brinquedo no dia do seu aniversário, no Natal, no dia das crianças ou em qualquer ocasião dedicada a ela.

Presente bom – entende-se brinquedo, foram o que eu ganhei de seu Medina – ou o Barão do Rio Branco – como costumávamos chamá-lo.

Ele sempre nos dava brinquedo no Natal. 

Certa vez ganhei a Maria Costureira, acho que era esse o nome, porque tinha duas roupinhas. 

A minha irmã ganhou a Emília, era de pano e não tinha roupinha reserva como a minha. 

Outro presente que ganhei foi um conjunto de xícaras com pires que ficavam numa bandeja linda vermelha. 

O seu Medina sabia o que criança gosta de ganhar de presente: brinquedo.

Certa vez ganhei uma sandália de aniversário.

A sandália ficou pequena. 

Tinha sido dada por uma amiga da família, a Célia.

Foi comprada numa espécie de mercado que vendia de tudo.

Era simples trocá-la por numeração maior. 

Fomos ao local. 

Encontrei a sandália, mas não me foi permitido ficar com ela.

Por quê?

Porque não tinha nenhuma que servisse na minha irmã, que por chorar copiosamente, fez com que meu pai decretasse: se não tem para uma não tem para nenhuma.

Nunca entendi a atitude do meu pai.

Por vários anos me perguntei por que fez isso.

Nunca aceite a indiferença da minha mãe diante de tal injustiça.

Nunca perdoei o egoísmo exacerbado da minha irmã. – Desde quando ela necessitava ter, além de tudo o que era meu, uma sandália igual a minha, que foi minha por muito pouco tempo. 

Além disso, essa via era sempre de mão única.

O contrário nunca aconteceria mesmo se fosse possível.

Mesmo criança eu tinha noção que isso era um absurdo.

– É só uma criança, não sabe o que está fazendo, pensará alguém. 

– Cada um se defende como pode, dirá outro.

Ela sempre era protegida, até pelos estranhos.

Se fosse um brinquedo como o que eu ganhei do rapaz do armazém – uma boneca de plástico – não seria necessário a troca e assim eu teria ficado com o meu presente de aniversário.

A menina que está na frente da vitrine em 1.981 está dizendo para adulta de 2.021 que talvez não tenha acontecido dessa maneira, a memória, às vezes, nos trai…

Então a imagem ganha som e escuto novamente que se não se não tem para uma não tem para nenhuma.

Ninguém tem o direito de tirar de mim o meu presente de aniversário.

Enfim, digo.

20/01/2.021

O último adeus

Por: Josaine Airoldi

Ao obter como resposta o barulho do fósforo sendo riscado na caixa na terceira vez que fez a mesma pergunta: “Quem está aí?”, minha mãe não teve dúvidas, pulou a janela do quarto.

Não tínhamos luz elétrica, por isso ficavam sempre: uma caixa de fósforos e uma vela na “guardinha” próximo a porta que era fechada por dentro por uma tramela.

Estava em pânico e nos deixou em pânico por muitos anos.

Diziam que era um tio que morreu dias depois que tinha vindo se despedir.

Eu me perguntava, então porque não respondeu. 

Será que não tinha uma maneira menos traumatizante para fazer isso e porque logo a minha mãe a pessoa escolhida que, além de estar sozinha estava grávida.

Não gostávamos de dormir na nossa casa, depois que ficou assombrada muito menos.

Sempre que possível conseguiamos nos livrarmos de tal incumbência.

Gostávamos de dormir na casa da minha avó que ficava no mesmo pátio.

Minha avó tinha vindo com as minhas tias morar perto justamente para minha mãe não ficar sozinha durante as longas ausências do meu pai que, por ser caminhoneiro ficava longos períodos longe da família. 

Era comum minha mãe decretar que queria dormir na cama dela

– Onde se viu: nós tínhamos casa – sempre dizia.

Então, uma de nós tinha que lhe fazer companhia.

Às vezes, relembrando dessa história me questiono o que teria acontecido se uma de nós estivesse junto.

A resposta é sempre a mesma: o desfecho seria igual.

12/04/2.020

Se eu tivesse uma mochila

Por: Josaine Airoldi

Com sete anos eu e a Nane ingressamos na 1ª série.

A escola  Thomaz era de madeira, tinha pouquíssimas salas e era pintada de azul, eu acho. 

Tudo era novo e assustador. 

Não melhorou com o passar do tempo. 

O que me confortava, de certa maneira, era saber que alguém viria nos buscar ao final da aula.

Certa vez, apesar da chuva torrencial, chegamos  a conclusão que seria uma boa ideia não esperarmos o adulto responsável naquele dia, pois estava demorando muito. 

Estávamos completamente encharcadas quando nos resgatou daquela situação.

– Por que não esperaram? – Jorge, o irmão da Nane, disse furioso e ao mesmo tempo percebendo que éramos capazes de irmos e virmos da escola sozinhas.

O material escolar que trazíamos conosco era igual e cabia numa pasta de papelão: um caderno, lápis, borracha e apontador. 

Tinha sido dada a ela pela minha mãe como pagamento de uma promessa que havia feito. 

Lamentei muito a mãe dela não ter feito nenhuma promessa, quando me mostrou a mochila de couro linda que havia ganhado, além de caderno novinho, pois o antigo havia se desmanchado. 

Isso se tornou pior quando recebi minha nova pasta – era de plástico, amarela e cheia de buracos feitos com caneta pela minha tia que tinha feito certamente quando a aula estava chata. “Vou fazer esses buraquinhos” – Ela deve ter pensado na época.

Não sei como foi parar embaixo do assoalho da casa da minha avó que a retirou de lá, lavou e colocou um elástico branco e me entregou. 

Minha avó sempre resolvia tudo com facilidade.

Como era plástico não estragava tão facilmente. – Alguém disse.

A partir daquele dia passei a odiar a escola e tudo o que ela significava.

Eu tinha muita vergonha daquela pasta Frankenstein.

Colocava a culpa no elástico, pois se fosse igual ao original, não chamaria tanta atenção.

Colocava a culpa na minha tia que não tinha se livrado direito da pasta, uma vez que não a queria mais.

Colocava a culpa na minha mãe, pois custava ter comprado uma mochila que nem a família da minha amiga fez.

Nada disso foi verbalizado, mas muito sentido, tanto que as imagens permanecem nítidas enquanto escrevo.

No ano seguinte ganhei uma mochila preta de couro, poderia colocar nas costas, se quisesse. Tinha uns desenhos de umas crianças estudando e uma frase embaixo: “Vamos estudar o Brasil precisa de nós.”

Quase todos da escola tinham uma igual, apesar disso não dei muita importância para aquela mochila, logo eu que sempre tive necessidade de ser igual aos outros, para não me sentir deslocada.

Tenho a impressão que tudo que desejo eu recebo, mas nunca recebo quando realmente desejo.

27/11/2.010

Uma história puxa outra!

https://lembrarparanaoesquecerinfo.data.blog/2020/07/28/o-caminho-3

O carinho da mãe, o guaraná e a injeção

Por: Josaine Airoldi

Quando a minha mãe e a minha avó percebiam que as claras de ovos batidas colocadas nos meus pés não estavam fazendo efeio e não importava o quanto de guaraná “fora do gelo” eu tomasse, a febre alta não iria abaixar, elas começavam a cogitar a possibilidade de ser levada para consultar em Osório. 

Nesse momento chorava ainda mais. 

Não tanto pela dor terrível na garganta, mas pelo fato de saber que iria tomar injeção e ficando boa não teria mais o carinho e a atenção da minha mãe, que nessas ocasiões ficava em volta da cama aflita, medindo a minha febre de 10 em 10 minutos. 

Eu suplicava dizendo que estava melhor que não precisava, embora a febre me desmentisse.

Como meu pai estava sempre trabalhando longe dali, era chamado o seu Artur, que trabalhava como taxista e estava sempre a postos para atender os vizinhos.

A Doutora Maria Amelia sempre receitava a mesma coisa: Benzetacil, para o pavor de todas as crianças ainda existe.

Para garantir a eficácia do tratamento, a primeira dose de injeção era dada lá mesmo no consultório.

As demais eram aplicadas na casa de uma senhora que era enfermeira – Dona Noemia – para a qual eu tinha que ir todos os dias durante sete dias.

Embora criasse vários planos durante o trajeto para me livrar daquela situação não conseguia pôr nenhum em prática.

Depois de esterilizar a seringa de vidro, ela realizava com habilidade seu ofício; enquanto aquela bondosa senhora se tornava, por alguns segundos minha carrasca, eu o via escondido se divertindo com a minha situação. Tinha mais ou menos a minha idade e era sempre mandado para o quarto, quando eu chegava, mas nunca obedecia à mãe.

O que doia mais era ter que enfrentar tudo isso sozinha.

Cada vez que eu reclamava de alguma coisa para minha mãe eu ouvia que eu tinha que agradecer muito a Deus por estar viva, que ficou cuidando de mim meses e meses no Hospital Conceição, que eu tinha sido desenganada pelos médicos.

Depois de muito tempo estava eu e minha mãe novamente no mesmo hospital, em posições contrárias, porém dessa vez os médicos não estavam errados quanto ao diagnóstico.

                                                                                      15/08/2.000

Esqueceram de mim

Por: Josaine Airoldi

Fiquei sozinha olhando todos entrarem na igreja: os convidados – entre eles meu pai, minha mãe e minha irmã do meio, o noivo e enfim a noiva acompanhada pelo pai e pelas daminhas de honra.

Nenhuma das possibilidades seria possível. – Eu concluí.  

Se levasse o pelego e a bolsa com as fraldas não conseguiria levar a minha irmã. 

Se levasse a minha irmã teria que deixar o resto para trás. 

O que eu queria mesmo era deixar tudo e sair correndo.  

Estava olhando para o horizonte tentando entender o que estava acontecendo…

Será que ninguém lembrou que eu estava sozinha na praça com uma bebê de alguns meses? 

Ou então que uma bebê de alguns meses estava sozinha numa praça com uma criança de 10 anos?  

Eu estava nesse devaneio quando chega a tia Sirlei. 

Ela me olha sem entender o que eu estava fazendo ali, mas não perde muito tempo com perguntas.

Rapidamente troca a fralda de pano que estava bastante suja e me tira daquele suplício. 

Depois disso, tudo transcorreu bem. 

A festa estava boa. 

02/06/2.010

Meus fantasmas

Por: Josaine Airoldi

Chegou o momento: 

– Precisamos ir. – Eles sussurram.

– Talvez. – Digo a eles.

Já tivemos momentos como este. 

Não é novidade, eles afloram tão fortemente a ponto que eu deseje aprisioná-los. 

A aprisioná-los em outro lugar não é fácil.

– Porém, é preciso. – Eles insistem.

Meus fantasmas parecem mais lúcidos do que eu. 

Eles querem se desapegar de mim. 

Sou egoísta e não quero abandoná-los.

Receio encarar a realidade.

Descobrir-se é perigoso. 

Não sei se estou preparada para enfrentar-me. Preciso saber quem eu sou.

Parece simples, mas não é.

Permanecer no presente é desafiador para mim. 

Minha mente está sempre fugindo para o passado para me recriminar ou para o futuro para me incomodar e me frustrar. 

Às vezes tenho que me “puxar” para o presente.

Encontrar-se requer trabalho, dedicação e horas de aprendizado sobre si mesmo. 

É um ato narcisista extremo. 

Preciso ser egoísta neste momento.

Meus fantasmas estão me perturbando. 

Querem me abandonar. 

Não sei se estou preparada para seguir sem eles.

Minha mente fervilha enquanto os meus dedos trôpegos tropeçam entre um pensamento e outro. 

Tenho que ser rápida. 

Eles precisam ser guardados no papel. 

Estamos juntos a longo tempo. 

Não podem simplesmente desaparecer de um momento para o outro.

Necessito deles para me dizerem qual é o caminho.

Eles são a minha referência.

Não sei seguir vivendo sem eles…

Enfim, eles compreendem e dizem que vão permanecer mais um tempo comigo.

Respiro aliviada e agradecida…  

25/08/2.007

Halls

Por: Josaine Airoldi

Sempre nos oferecia Halls preto, que ardia muito na boca, então, colocávamos fora. 

Não sei por que nos oferecia. 

Também não sei porque aceitava se sabia que colocaria fora.

Ele era atencioso comigo, com minha irmã e com uma amiga que tínhamos.

Participava das nossas brincadeiras perguntando como estávamos e também sempre cumprimentava a nossa amiga e vizinha imaginária. 

Nesses momentos não éramos crianças, éramos donas de casa atarefadas com as lides domésticas. 

Tínhamos até outro nome.  

Ele era amigo do meu avô e se tornou namorado da minha tia e, de vez em quando, vinha visitá-la e por morar longe ficava o fim de semana, por isso dormia no sofá da sala da casa da minha avó.

Como o interesse da amada era pouco.

Só restava o bar que ficava próximo de onde morávamos.

Minha irmã adorava acompanhá-lo nessa empreitada, pois o rapaz lhe dava o que pedia.

Ela servia como anjo da guarda lhe guiando no caminho de volta. 

Lembrando dos dois juntos parecem a Marsha e o urso.

O namoro não durou. 

Ficaram com lembrança um disco do Júlio Iglesias presente dele para a namorada, que eu adorava ouvir, apesar de não entender o porquê de tantos lamentos e uma foto dos dois juntos no álbum de quinze anos da minha tia.

17/04/2.020

A consulta

Por: Josaine Airoldi

É só comprar outro – ele me diz.

Se eu tomasse a medicação indicada pararia de dar importância para coisas pequenas do dia a dia.

Ele fala sobre os componentes químicos do remédio como um aliado.

As pessoas vão continuar fazendo coisas que te desagradam, porém tu não darás essa dimensão, ou seja, não  tente mudar o outro, tenha outra visão sobre o acontecido.

-Se  o vinho que vocês compraram para tomarem juntos foi tomado sem a tua participação é só comprar outro. Simples assim.

– A casa está bagunçada? Contrate uma faxineira.

– Está cansada? Descanse!

– Aprenda a dar outra resposta a tudo que te incomoda.

Parece fácil ouvindo. 

Estou quase convencida que tem razão.

Mas, quando usa o exemplo, que se alguém escolhe trabalhar num ambiente sem janela, mas com ar–condicionado…

Olho em volta e percebo que está se referindo a própria situação, que é uma maneira de se convencer que fez a escolha certa.

Ele volta a falar do remédio como se fosse um velho amigo.

Minha mente viaja. 

Estou analisando o psiquiatra.

Conhecer o ser humano é uma dádiva e um tormento. 

Às vezes, se torna complicado a convivência com certas pessoas, pois se entende além do que é dito. 

Todos nós temos nosso calcanhar de Aquiles.

Será que para isso existe remédio?

22/01/2.020

As gurias bárbaras

Por: Josaine Airoldi

Elas fediam a xixi.

A casa inteira fedia a xixi.

Mesmo após o banho fediam a xixi.

Com o tempo Marlene ficou cada vez mais presente na minha casa. 

Foi para ela que minha avó pediu ajuda para cuidar dos animais que criava.

Foi para ela que meu pai contou como descobriu que a minha mãe estava grávida.

Sinceramente eu não tenho nada contra a Marlene, principalmente porque ela não fedia a xixi e me considerava inteligente. 

A minha rixa era com suas filhas que por mais que apanhassem não ficavam meninas educadas e sem cheiro de xixi.

De repente, aquela cena vem a minha mente agora:

Uma delas ocupando um espaço que era meu – o meu balanço. 

Não tinha o direito de usá-lo. 

Qualquer outra criança eu não me importava; porém ela ou a irmã dela eu não suportava que o usassem.

Tinha que agir logo e agi:

– Olha lá a tua mãe está chegando!

Ela correu para o portão, libertando-o de imediato.

Eu ganhei! 

A vitória logo perdeu o sentido. 

Ela ficou estagnada no portão. 

Era muito burra para compreender que eu havia a enganado.

Eu sempre tive um senso absurdo de responsabilidade sobre tudo e sobre todos.

Receava que aquela guria fosse atropelada caso não saísse daquele portão.

– É mentira a tua mãe não veio ainda! – Gritei.

– Sai dai! – Supliquei.

– Vem brincar no meu balanço! – Apelei.

A raiva ia aumentando enquanto eu me aproximava mais e mais do portão.

Depois de quase quarenta minutos o ônibus para e finalmente elas aparecem.

Ela saiu disparadamente em direção à parada.

Respiro de certa forma aliviada.

Agora a responsabilidade não é mais minha.

Eram duas quando nos conhecemos. 

Não tive nenhuma simpatia por elas. 

Piorou quando a família aumentou e nasceu o irmão. 

Eram três para eu cuidar quando a minha mãe resolvia fazer compras em Osório na companhia da mãe deles.

Numa tarde enquanto estou tentando acalmá-lo, sinto algo metálico nas minhas pernas. 

Por ciúme do irmão, a bárbara mais nova me atacou com o resto do que um dia foi um guarda-chuva.

Fiquei ajoelhada segurando o menino chorando com toda a força que eu tinha para não deixá-lo cair até que alguém viesse em nosso socorro.  

Eu descobri, mais tarde, o quanto poderia ser ainda mais cruel. 

Naquele momento não queria acreditar que eles estavam mortos, que eles haviam sido estrangulados e enterrados por pura maldade e inveja. 

Eles eram os meus pintinhos carijós. 

Ninguém tinha direito de tirá-los de mim. 

Não havia cascudo que aliviasse a minha dor.      

Era bastante comum Marlene enviar a mão embaixo daqueles cabelos sebosos que suas queridas e fedorentas filhas tinham e lhes aplicar uma punição. 

Certa vez me vinguei delas.

Estávamos em pleno inverno. 

As ruas não eram asfaltadas como até hoje não são e por isso alagam facilmente, então a Prefeitura jogava várias camadas de areia e enquanto a “patrola” não vinha para espalhá-la nós nos divertíamos naqueles imensos morros de areia.

O meu primo Almenir, que gostava de me defender – gosto de pensar assim – aprontou com a nossa ajuda – minha e da minha irmã, uma vingancinha saborosa.

– Todos tem que se enterrar na areia. Essa é a brincadeira. Anunciou, imponente de cima da areia. 

Imediatamente ficou definido por nós que as pessoas a terem o privilégio de iniciar a brincadeira eram elas.

Nós teríamos o trabalho de auxiliá-las nessa empreitada.

O que fizemos com muito prazer.

Vê-las soterradas na areia sem poder se mover e sendo atacadas por formigas foi muito divertido.

Quase aliviou toda a mágoa e raiva que eu sentia por elas.

É claro que nós não nos enterramos.

 Certa vez ao me dirigir para o caixa do supermercado percebi que talvez fosse a Clarice a operadora. 

Pensei em mudar de atendente, mas se fosse realmente ela perceberia a minha atitude. 

Tinha que ter certeza, por isso imediatamente olhei para o crachá e enfrentei a situação. 

Ela poderia não me reconhecer. 

– Não se lembra de mim?

– Claro! – Apesar de estar bem diferente.

– Depois de três filhos a gente muda bastante.

Sorri sem graça tentando disfarçar a inveja que senti daquela criatura.

Ser mãe era o que eu mais desejava e não estava obtendo muito sucesso. 

Não tive coragem para perguntar a respeito de Marlene, apesar de ser o único interesse que eu tinha em conversar com ela, uma vez que era inevitável. 

23/11/2.010

A culpa é do orégano

Por: Josaine Airoldi

Domingo à tarde tinha planejado sair.

Não fui. 

Ficou tarde. 

Tudo começou quando comecei a procurar o orégano que tinha certeza que estava num pote dentro de um armário. 

Não estava em nenhum pote ou armário da minha cozinha. 

Nessa empreitada começou-se a verificação de data de validade dos produtos sendo jogados fora os que já estavam vencidos, a limpeza de algumas áreas esquecidas no dia a dia…   

Não saí! Mas a cozinha ficou limpa e organizada.

Ao sentar exausta no sofá da sala me deparei com ele impassível e empoeirado pregado na parede, está sempre lá esperando que seja limpo, que seja colocado um dos ponteiros que caiu e que também sejam trocadas as pilhas que o fazem produzir seu indiferente tique-toque.

Qualquer dia mando arrumar – assim com todo o resto que precisa de conserto.

Aos poucos o meu corpo vai adormecendo e me aconchegar entre as almofadas parece o caminho natural a ser seguido.

Fui ensinada a fazer o que é certo. 

Fui ensinada a pensar sempre no bem estar dos outros. 

Fui ensinada a não dar opinião quando os adultos estavam conversando.

Sendo adulta não consigo decidir o que é realmente relevante para determinado momento. 

Às vezes, me proponho a não tomar decisão nenhuma.

Fico à deriva, como um barco sem rumo, pois não desejo remar.

Não desejo ir a lugar algum.

Não quero ser responsável por qualquer coisa que possa acontecer em decorrência da minha interferência ou pela minha alienação.  

Fico ao sabor das consequências da minha não ação.  

É uma maneira tosca de me rebelar contra aquilo que me aflige.

Às vezes, é mais cômodo culpar algo aleatório sobre o que dá errado ou não acontece como desejado do que encarar que sou responsável pelas minhas decisões ou pelas minhas não decisões.

Não sai num domingo à tarde como tinha planejado e queria, mas a culpa não foi minha, a culpa é do orégano.

05/01/2.020 

O retrato

Por: Josaine Airoldi

Olho o retrato. 

Nele há duas meninas.

Talvez, só exista nos retratos e nas lembranças distantes da infância a verdade.

Olho o retrato.

Lembrança de que somos irmãs e que fizemos o melhor que podíamos do que de nós resultamos. 

Olho o retrato.

30/06/2.010

O quatro olhos

Por: Josaine Airoldi

Lembrei-me hoje de uma brincadeira da época em que estudei na Escola Assis Brasil.

Veio à mente a frase: “sabe o quatro olho ele não percebeu que havia uma janela e foi com tudo nela”

Ele, quem mencionou esse fato era o Rogério.

Rogério era um garoto muito magro e muito alto para a idade e que desenhava muito bem.

O quatro olho em questão era nosso colega na oitava série.

Era extremamente tímido e ter que usar óculos não o ajudava em nada.

Eu me sentia estranha naquela escola e naquela turma.

Acho que por isso que nos identificamos e começamos por brincadeira a disputar o mesmo lugar.

Quem chegava primeiro sentava no lugar disputado.

Eu era mais alta que ele e dependia de transporte para chegar à aula, enquanto ele morava perto e por isso quase sempre chegava antes de mim.

Quando não conseguia algum êxito me perturbava a aula toda.

– “Da Frente”, dá licença não consigo enxergar daqui de trás.

Eu respondia qualquer coisa para que fosse possível continuarmos com nossa guerrinha particular.

Certa vez descobri que gostava de uma música do Roupa Nova: Um trem azul.

Não tive dúvidas, copie a letra numa folha de papel, escrevi uma mensagem simpática tipo. “Seja feliz” ou qualquer coisa assim e lhe entreguei.

Foi quando descobri que estava interessado numa menina da outra turma que eu achava muito feia, mas mesmo assim o incentivei para que se aproximasse dela.

Talvez, por causa do meu incentivo, criou coragem e durante um recreio qualquer disse que queria namorá-la .

Por certo tempo era comum vê-los juntos de mãos dadas no pátio da escola.

Fiquei profundamente triste vendo o quanto estava sofrendo porque ela tinha acabado o namoro.

Entendi, enfim o que eu não queria: ele gostava mesmo dela; e eu nunca deixaria de ser a “da frente”, simplesmente.

Atualmente, não usa mais óculos, talvez lentes de contato, como eu que tive que usá-la por detestar usar óculos de grau ou fez cirurgia.

Casou-se com uma menina bem bonitinha.

Descobri recentemente que fica extremamente bonito com roupas totalmente brancas que usa em sessões de umbanda numa casa que frequenta.

O tempo só lhe fez bem.

 09/11/2.010

EU… EU… EU… sou um GÊNIO

Por: Josaine Airoldi

Egocêntrico. Egoísta. Enfadonho. Esquisito. Estranho. Extremista…

Apesar dessas características espantosas reunidas na mesma personalidade ele foi a pessoa com quem mais fácil convivi. Não esperava nada dele e de mim não nada exigia. Acho que a própria presença lhe bastava.

Às vezes, era engraçado.

Não tomava nenhuma bebida gelada por causa da garganta – não se permitia ficar doente.

Às vezes, era enfadonho querendo ser culto.

Enquanto as pessoas comuns vão à praia ele contempla a orla marítima.

É comum pôr mostarda em lanches, ele só aceita pôr condimento a base de mostarda.

Era sempre extremamente desagradável falando o que pensava.

Ao me presentear no meu aniversário:

– Comprei uma caixa de bombons Lacta. Adoro chocolate e só compro dessa marca que é a melhor que qualquer outra. – Falou sem se importar com fato de eu ter recebido outra caixa de bombons de outra marca.

– Sorvete bom é flocos e só da Nestle. – comentou certa vez na fila do caixa do supermercado.

Enquanto expunha o seu ponto de vista olhei sem graça para o rapaz que estava atrás de nós na fila do supermercado com um pote de sorvete de banana de uma marca um pouco duvidosa.

Qualquer outro sabor não gosta, embora nunca tenha provado nenhum outro.

Fazia questão de lembrar que quando criança teve fimose e por isso tinha sido operado.

Às vezes, era tão ridículo que chegava a ser patético.

Quase morri de vergonha quando resolveu entrar numa vídeo locadora com o capacete na cabeça, parecia um verdadeiro lunático.

Suportaria qualquer coisa, mas não queria nem pensar que algum mal pudesse acontecer a sua mãe.

A mãe em questão era uma boa senhora, que tinha enorme orgulho do único filho cujo pai nunca reconheceu.

Fazia o que fosse preciso para ver o filho feliz, como qualquer boa mãe.

O menino se recusava a amadurecer apesar dos quase trinta anos.

Achava, provavelmente, que enquanto o padrasto o ignorasse e a mãe estivesse ali para protegê-lo não precisava crescer.

Não necessitava de mais ninguém, exceto a mãe, a sua grande paixão e a única razão de sua existência.

Hoje é o dia do seu aniversário.

Deve ser por isso que me lembrei dele e de sua eterna mania de não se tornar adulto.

14/10/2.010

Candidata a amiga

     Por: Josaine Airoldi

Ter uma amiga na turma em que eu estudava sempre foi um desejo meu.

Sempre que eu conseguia fazer amizade com alguma menina na turma acontecia o seguinte: eu passava e a candidata a melhor amiga era reprovada ou parava de estudar porque tinha engravidado do namorado ou iria embora para outra cidade…

Com a Vanderleia foi assim:

Por “convite” feito pelo professor de Matemática eu tive que assistir às aulas de recuperação terapêutica.

– Ela passou, mas seria interessante que frequentasse as aulas de Matemática para reforço. – disse aquele professor à minha mãe.

Eu tinha verdadeiro pavor daquele homem que não conseguia assimilar que eu não precisava passar mais tempo na sua presença.

Eu havia conseguido alcançar à média, mesmo que isso lhe contrariasse profundamente.

Se ele foi capaz deixar o filho da diretora da escola, após o período letivo o que não faria comigo – eu pensava sempre.

Como não conseguia compreender o horário das aulas, eu ia à escola no horário normal e ficava esperando as aulas de Matemática que, às vezes, eram os últimos períodos.

A pior parte foi quando meu pai resolveu nos levar para a colheita de cana numa chácara que pretendia vender.

– Eu não posso faltar à aula. – Explicava.

– Bobagem. Vamos todos. Vocês irão de Kombi com o Paulo.

O passeio foi muito bom.

O lugar era muito bonito.

Fazia jus ao nome: Figueira Grande.

Fizemos piquenique.

Conhecemos crianças que trabalhavam com foices e facões.

Conversei muito com a Patrícia que apesar de sempre frequentar a sua casa e comparecer as suas festas nunca fiz parte da sua turma.

No outro dia estava em pânico, com medo de ser reprovada.

Como chegava sempre cedo pude escorada no muro da escola copiar a matéria.

O professor não falou nada a respeito da minha ausência na aula anterior.

Até me chamou para resolver uma expressão numérica no quadro, quando percebeu que o Genésio não sabia resolvê-la.

Ainda estava tremendo quando ouvi que todos deveriam saber resolver a operação como eu sabia.

No dia da entrega de boletins encontrei Vanderleia convicta que tinha sido aprovada para a 5ª série e que a irmã tinha sido reprovada, porém aconteceu o contrário do que ela tinha previsto.

Sempre foi assim quando eu conseguia fazer amizade com alguma menina na turma acontecia o seguinte: eu passava e a candidata a melhor amiga era reprovada ou parava de estudar porque tinha engravidado do namorado ou iria embora para outra cidade…

Realmente, eu estava predestinada a ser um ser solitário.

04/12/2.010

As balas

         Por: Josaine Airoldi

Num dia enquanto tentava me equilibrar num ônibus lotado, tive uma sensação muito estranha.

Senti-me protegida sem ser tocada.

Olhei para cima havia um braço másculo, mas não consegui ver de quem era.

Isso só foi possível quando o dono do braço desceu na parada seguinte.

Estava ainda mais bonito e mais alto do que eu me lembrava.

Eu sabia que havia casado com uma garota que eu conhecia de vista e que o casamento não tinha dado certo.

O que fez com que eu sentisse pena dele e muita raiva dela; como ela pode traí-lo? – Eu pensei quando ouvi essa história.

Eu o conheci quando tinha meus sete ou oito anos.

Estava na primeira ou segunda série.

Ia sempre comprar balas após a aula num armazém perto da escola.

Que idade ele tinha nunca fiquei sabendo.

Sei que era mais velho que eu.

As balas a mais do que a minhas parcas moedinhas pagavam vinham um sorriso.

Ele sempre foi gentil comigo e acho que com todas as crianças que por ali passavam.

 Mas naquele dia ele não me atendeu, nem sempre ele estava ali.

Quem me atendeu foi o pai dele.

Antes eu não ter entrado ali naquele dia.

Também não me lembro do porquê de querer tomar Coca-Cola depois da aula.

Mas me recordo perfeitamente que rapidamente colocou a tampinha na garrafa do refrigerante, dizendo que eu não tinha dinheiro suficiente e guardou a garrafa novamente no freezer.

 O que faltava era muito pouco.

 O que não foi pouco foi a minha humilhação que senti vendo a garrafa sendo retirada das minhas mãos.

  Como senti falta do Paulo Ricardo naquele dia.

          26/11/2.010

Triângulo amoroso tupiniquim

Por: Josaine Airoldi

A história era para ser minha e do Moacir, mas o destino não quis. – disse certa vez Jussara.

Como contra o destino não há como lutar – assim alguns acreditam – tornou-se a história de Moacir e Jurema.

Jussara gostava do Moacir.

Moacir, talvez gostasse de Jussara.

Jurema também gostava do Moacir.

Enquanto Jussara acreditando que seria feliz para sempre com Moacir numa casinha que não fosse de sapê, Jurema anuncia que engravidou.

Talvez o desenlace desse folhetim fosse diferente se não houvesse a presença do filho nessa história.

O fato é que diante do acontecido, ao pai não restou alternativa – o casamento entre Jurema e Moacir era necessário e urgente – mesmo sabendo o quanto magoaria Jussara – a filha mais querida.

Tempos depois Jussara não suportando a desilusão bem longe dali foi morar e com outro se casou.

Assim tristes ficaram os três.

Cada um escondendo suas dores e decepções com frágeis máscaras.

Moacir na bebida encontrou acalento.

Jurema na mágoa mergulhou.

Jussara percebendo que nem sempre encontraria abrigo, naquele que escolheu para substitui Moacir, filho com ele, nunca quis ter.

Sempre que esse assunto é trazido à tona, percebo o olhar distante dela, como tivesse tentando se convencer que não era para ser.

Quem de nós poderá saber?

29/04/2.020

Meu anjo

Por: Josaine Airoldi

De onde vem isso?

Sei lá tirei da minha cabeça.

Tantas coisas não ditas.

Tantas coisas ditas.

Tantas coisas ditas e não compreendidas.

Tantas coisas não ditas e compreendidas.

Meu anjo.

Tudo termina como começa.

30/06/2.010

O pai traz a Coca-Cola

Por: Josaine Airoldi

Domingo.

Almoço.

Convite.

Chegaram.

O pai traz a Coca-Cola.

E por alguns instantes representamos uma família.

30/06/2.010

Acabou!

Por: Josaine Airoldi

– Acabou – ele me disse.

Como achou que eu não tivesse entendido, continuou…

– Não sinto a tua falta quando estou sozinho ou com meus amigos. – explicou que observou isso, após ter sido orientado pela sua psicóloga.

Não me importava se ficasse por compaixão, pois naquele momento eu precisava de alguém para compartilhar a dor e a tristeza do luto materno.

Ele foi cruel o mais que pode, talvez para se fazer entender:

– Não quero mais…. Tenho 40 anos… Preciso ser alguém e tem que ser longe de ti…

Como sempre: estava irredutível…

– Vou embora. – Disse por fim.

Foi.

26/06/2.010

Éramos felizes e sabíamos

Por: Josaine Airoldi

Ter sido criança na década de 80 é uma coisa muito bizarra quando comparamos aos dias atuais.

Não tínhamos muito, mas tudo que tínhamos era muito valorizado.

Os brinquedos eram latas de azeite e potes de margarina onde fazíamos comida, que consistia misturar areia com água.

Brincávamos até tarde na rua próximas a porta da cozinha para aproveitarmos a luz do lampião, reproduzindo os programas de televisão que conseguíamos ver de vez em quando.

Os desenhos animados eram politicamente incorretos.

Assistíamos no cinema Coimbra os filmes do Teixeirinha.

Às vezes, à noite íamos na casa da dona Luci enroladas em cobertores se estivesse muito frio olhar a novela das 8 horas. Apesar das indicações de censura: “Programa proibido para menores de 12 anos” – dizia uma voz – enquanto na tela da televisão havia um lembrete enorme.

Nos intervalos da novela víamos…

A Pepsi anunciando que era melhor que a Coca-Cola, mas só tomávamos um ou outro aos domingos e quando recebíamos visita, que vinham sem avisar, pois não havia como. Ter telefone em casa era um luxo para poucos.

Tinha também um gurizinho que não deixava os pais esquecerem de comprar uma Caloi para ele.  

Os anúncios diziam que as donas de casa poderiam escolher entre os eletrodomésticos da Walitta e da Arno.

Os cereais anunciavam que continham mais açúcar que antes e, por isso estavam melhores ainda.

O sonho das meninas da época era ter a Melissinha que vinha com a pochetezinha.

Havia uma menina que trazia um Laka para o namorado, mas como ele demorava para encontrá-la, comia o chocolate e para compensá-lo beijava-o.

Como não lembrar das propagandas das lojas: Mesbla, Arapuã, Alfred, J.H. Santos – nenhuma existe mais.

Era comum buscávamos cigarro no armazém para os adultos para podermos comprar balas com o troco.

Entregávamos leite na casa dos vizinhos. Alguns eram simpáticos como a dona Lurdes, que nos convidava para entrar enquanto despejava o leite em outro recipiente. Outros eram antipáticos e nos deixava esperando na porta.

Comprávamos mel no seu Elpídio – velho ranzinza e mal encarado, mas que de vez em quando nos presenteava com favos de mel. 

Entregávamos a revistinha da Avon na casa das senhorinhas que, adoravam comprar perfumes adocicados com os quais enfeitavam a penteadeira no quarto.

Havia os porcos os quais costumavam fugir da “mangueira”. Acho que eles não gostavam muito desse lugar, pois seguidamente fugiam.

Nós éramos incumbidas de procurá-los e trazê-los de volta.

Lembro-me do seu André perguntando, quando nos víamos:

– Os porcos do seu Zé fugiram de novo, gurias?

– Sim – respondíamos envergonhadas.

Eles gostavam mesmo era da plantação de aipim e de milho do vizinho do lado. O seu Baiano ficava furioso quando via os canteiros revirados e nós ficávamos com as pernas e roupas rasgadas ao pular a cerca com arame farpado para buscá-los.

Como não nos lembrarmos dos porres de vinho com açúcar e água que tomávamos durante os almoços de domingo com os guris da Célia.

Os dias que choviam eram os melhores pois alagava tudo então podíamos brincar nas poças.

Gostávamos da chuva, também porque ela fazia com que o pai viesse para casa.

Chovendo ele não poderia trabalhar.

Não podendo trabalhar vinha para casa.

Vindo para casa tínhamos um certo descanso do comportamento tempestuoso da minha mãe.

Equação simples, mas gostávamos de pensar que ele vinha por termos subido em algum latão e chamado por ele.

Vindo para casa tínhamos um certo descanso do comportamento tempestuoso da minha mãe.

Nos dias quentes, íamos buscar gelo na casa da dona Luci, a mesma em que íamos para olhar televisão.

Andávamos no porta-malas do carro – inclusive era disputado pela garotada.

Havia os espertalhões que apareciam vendendo produtos excepcionais, que não passavam de engodo, o que era constatado após algum tempo, depois que já estavam distantes enganando outras pessoas.

Tinha um senhor que vinha vender frutas e verduras numa carroça pequena. Usava uma balança manual. Era sério. Quase nunca sorria. Não sabíamos o nome dele. Minha avó criou um apelido para ele, acho que era meio ofensivo, pois tinha medo que descobrisse a maneira que nos referíamos a ele.   

Era comum os pedintes serem bem acolhidos recebendo um prato de comida bem generoso e água.

Às vezes, apareciam os fotógrafos que se ofereciam para restaurar fotografias trazendo-as tempos depois em molduras ou produzir em casa um ensaio fotográfico com as crianças da família, tudo bem pitoresco.

As balas eram extremamente gostosas e perigosas, embora ninguém tivesse essa noção na época.

Se engolíssemos o cliché minha avó vinha correndo uma colher com azeite para tomarmos, se não teríamos as tripas grudadas.

Tínhamos cofrinho onde colocávamos moedas que depois eram depositadas na poupança da Caixa Econômica Federal. O cofrinho em questão era uma lata de cerveja recolhida na rua..

Minha irmã do meio tinha como hábito apanhar de meninas maiores que ela e se tornarem melhores amigas depois.

Éramos felizes e sabíamos.

11/03/2.019

Devaneios à beira-mar

Por: Josaine Airoldi

Eu não tinha intenção de entrar mar adentro, como acho que pensou.

Estava somente divagando solitária e triste.

A reunião que eu tinha terminou mais cedo do que eu tinha previsto.

Não estava a fim de retornar para a escola e muito menos ir para casa.

Então, me restava a praia, a imensidão azul do mar, o eterno incansável ir e vir das ondas…

Eu estava vestida de: professora-titular que tem reunião na escola da estagiária.

Então, tive que improvisar: tirei o calçado e arremanguei as calças para poder sentir a água gelada, mas aos poucos fui entrando um pouquinho mais…

Gosto da água do mar chegando devagarinho, me trazendo à realidade.

– Oi! Quer carona? – me perguntou!

Eu estava tão absorta nos meus pensamentos, que esqueci de todo o resto.

Olhei em direção daquela voz.

Encontrei um rapaz: jovem, bonito, simpático…Parecia preocupado comigo, não sei por quê.  De certo achou que eu era louca.

Não respondi.

Então, achando que eu não tinha entendido ou não tinha ouvido, aproximou ainda mais o carro e repetiu:

– Quer carona?

Olhei em volta a praia estava quase deserta.

As ondas do mar indiferentes a tudo e a todos.

Estava tão perdida em mim mesma que resolvi aceitar.

Durante o trajeto: contou que era representante de uma marca de calças jeans e estava voltando para Porto Alegre, naquele momento.

Ofereceu-me uma calça do mostruário – a minha estava totalmente molhada, mas não aceitei.

 Expliquei que não tinha intenção de entrar mar adentro.

Não tinha coragem para algo tão trágico.

Queria apenas um pouco da serenidade que sempre encontro ao caminhar pela beira do mar, deixando a água me levar…

O nome dele eu esqueci, mas lembro-me que beijava bem.

Lembro-me também do jeito que me olhava.

Deixou-me em casa sã e salva.

Deve ter contado para alguém que, salvou uma desconhecida, numa manhã qualquer a beira-mar de Tramandaí da melancolia em que estava mergulhada.

Deveria ter aceitado a calça.

29/04/2.020

Uma história puxa outra!

https://lembrarparanaoesquecerinfo.data.blog/2022/01/24/qual-e-o-significado

Eu não era ela

Por: Josaine Airoldi

Depressão após fim de namoro!

Tristeza sem fim.

Transferência de escola.

Redução de salário.

Muitas contas a pagar.

Últimos semestres na faculdade.

Estágios. Relatórios. Trabalhos de conclusão. Teatro da Gleydes. Artigo para a Terezinha. Formatura à vista. Tudo ao mesmo tempo. Só quem viveu sabe! 

Foi então que ela teve a ideia.

Não só isso colocou-a em prática.

Soube depois.

Aceitei.

O que mais poderia acontecer na minha tão atribulada vida. 

Escreveu uma carta como se fosse eu. – isso aconteceu em 1.999 – então…  

Por telefone ficou horas me instruindo como deveria falar.

Mandou uma cópia para mim pelo correio.

Havia alguns erros de ortografia que para alguém que estava concluindo um curso de Letras ficaria no mínimo feio.

O pior é que havia feito cópias e mandado para vários perfis que achava que se encaixava com o meu.  

Tinha que confirmar que eu era aquilo que estava escrito. 

Já tinha esquecido dessa história quando recebi uma ligação.

A voz era agradável e a conversa também.

Chamava-se João – se não estou errada.

Conversávamos quase todos às noites após a Faculdade.

Era a melhor parte do meu dia ou da noite.

Relatava sobre as idas ao supermercado acompanhado pela sobrinha.

Eu contava sobre as aulas e sobre assuntos banais.

As férias de julhos estavam próximas.

Combinamos de nos encontrarmos quando fosse para Porto Alegre.

Minha amiga e mentora tinha que estar junto.

Instruída por ela marcamos num restaurante perto da casa dela.

Eu estava entre curiosa e em pânico.

O que me dava segurança era que sempre tão articulada e esperta não deixaria eu entrar em nenhuma cilada.

Fomos.

Estava divertido.

Rimos bastante imaginando quem era.

Encontro às cegas o que poderia dar de errado.

Até então todas as informações a respeito do pretendente a namorado estava perfeito.  

Ah! Eu tinha que parecer elegante. 

Então, se me perguntasse o que eu gostaria de beber teria que dizer que era suco de laranja.

Cerveja era vulgar.

Vinho era caro.

Refrigerante era infantil.

Tudo preparado.

O rapaz não aparecia.

Quando chegou.

Primeira decepção: era feio e estava vestido com o uniforme da empresa.

Não condizia com a voz, mas condizia com a descrição que eu havia escutado, mas não com a que eu tinha imaginado.

Após as devidas apresentações.

Então, avisou que daria uma volta para que pudéssemos conversar.

A conversa não fluiu como fluía pelo telefone.

Relatou as desaventuras que teve certa vez numa viagem que fez para o litoral.

Nada interessante para um primeiro encontro.

Não precisei escolher o que beber pois, não houve essa possibilidade.

Mas o que me incomodou bastante era que estava apreensivo para que minha amiga voltasse.

Quando minha amiga voltou ficou encantado novamente por ela que não tinha nenhum interesse nele.

Era casada.

Estava bem assim.

Rimos bastante depois.

Nunca mais me ligou.

Segui a vida.

Aos poucos tudo foi serenando.

Enfim, eu não era ela.

24/04/2.020

Dindo… Du

Por: Josaine Airoldi

Meu avô tinha duas personalidades.

Nós, as crianças, gostávamos mais da segunda.

Não tínhamos ideia do que os adultos passavam quando surtava – ou com dizíamos: estava diferente.

Quando estava na segunda personalidade, ele não ficava doente, falava com fluência, era destemido para desespero dos demais membros da família.

Como éramos crianças e não tínhamos noção do que acontecia, achávamos tudo divertido.

Quando víamos com uma maleta preta – que minha avó escondia, mas sempre a encontrava – sabíamos que iria começar tudo outra vez.

Era comum comprar coisas de que não necessitava de modelos e cores diferentes.

Por muitos anos não foi necessário comprar garrafas térmicas.

Quem não o conhecia considerava-o um próspero criador de gado da região.

Quem o conhecia tentava ajudar, avisando minha avó dos empreendimentos que andava fazendo que cedo ou tarde, teria que desfazer.

Era comum acusar todos que tentavam em vão trazer–lhe a realidade, de querer o mal dele.

Esbraveja em alto e bom som:

– Vocês querem ver o meu mal! Vocês não querem me ver bem! Vocês gostam de me ver doente!

Saía sem rumo.

Ninguém conseguia detê-lo.

Para voltar para ao “normal” era necessário a interversão e ajuda de uma vizinha que era enfermeira: Dona Noemia.

Depois de longo período internado em num hospital em Porto Alegre voltava sob efeito de medicação, que provocava muito sono.

Quando chovia ficava deitado nos perguntando se estava chovendo.

Quando dizíamos que sim, acrescentava:

– Mas é água!

Enquanto isso minha avó lutava contra as intempéries da natureza.

Tudo ficava mais difícil para ela, principalmente a ordenha das vacas.

Ambas personalidades ficavam extremamente irritadas quando algum desavisado ocupava o lugar dele à mesa.

Não dizia nada, apenas ficava em volta esperando a minha avó informar que aquele lugar era dele.

O mais incrível era como descrevia a festa que eu teria quando completasse quinze anos.

Dizia sempre:

– Vou te dar uma pulseira cravejada de ouro.

Numa das sessões de terapia descrevendo meu avô contei essa história.

Meu terapeuta me perguntou, com voz embargada, se eu tinha ficado decepcionada porque o desejo do meu avô não foi concretizado?

Disse que não. Nunca me importei com a festa ou com o presente. Achava divertido o modo que falava. Gostava da atenção que me dava e do fato de dizer que eu era especial para ele por ser sua primeira neta e além disso sua afilhada.

Eu o chamava de Du.

Dizem que quando era pequena não era capaz de pronunciar: Dindo.

Ele se foi em outubro quando eu tinha 14 anos – seis meses depois que minha avó.

Sinto falta dos dois até hoje.

18/05/2.020

Uniforme

     Por: Josaine Airoldi

Naquela tarde eu e a Vanderleia ficamos no pátio da escola vendo a legião de pessoas que se aglomeravam na porta da sala de aula, para receberem um corte de tecido branco – para a camisa e outro corte de tecido azul marinho – para a saia ou para a calça – no caso dos meninos.

Tanto eu – por meu pai ser caminhoneiro e minha mãe ser artesã e a Vanderleia, pelo pai ser construtor e a mãe ser dona de casa – se não me engano – não éramos consideradas alunas de baixa renda, por isso não recebemos o uniforme distribuído pela prefeitura.

No outro ano, além dos pedaços de tecidos, havia um suéter azul marinho os quais todos receberam, independente da situação financeira.

A exigência quanto ao uso do uniforme era rigorosíssima.

Geni, que estudava comigo na terceira série, certa vez teve que ir embora: estava sem o uniforme.

Certa vez, tio Pedro que vendia roupas e vinha de vez em quando para Tramandaí, apresentou um abrigo horrível preto, que era uma das cores permitidas para uniforme – minha mãe não teve dúvidas quando percebeu que a numeração era muito maior do que o eu realmente usava.

Eu tentei várias vezes rasgá-lo.

Não adiantava era de linho e dos bons, para meu azar.

Ninguém tinha igual na escola.

04/12/2.010

Uma história puxa outra!

https://lembrarparanaoesquecerinfo.data.blog/2020/05/21/o-sorriso-da-gracinha

O caminho

Por: Josaine Airoldi

Ter uma bicicleta e morar perto da escola foram fundamentais para a terceira série da qual eu fazia parte, ganhar a gincana em 1983.

Eu não tinha nenhum dos dois requisitos.

Talvez, por isso a professora não tenha me deixado participar da comemoração, me expulsou, ou melhor, me enxotou:

Eu tentava explicar: “eu não posso ir embora, não sem a minha irmã.”

– Vai embora – gritava ela batendo o pé com força no chão.

Fui.

No caminho rasguei o poema que havia levado – não tinha sido necessário e, além disso, não tinha sido criado por mim.

Tentando esconder os olhos inchados, enfim, cheguei em casa.

De todas as perguntas que ouvi nenhuma foi:

– O aconteceu contigo para ter vindo para casa sozinha chorando ?

30/06/2.010

Uma história puxa outra!

https://lembrarparanaoesquecerinfo.data.blog/2020/07/30/uniforme

Habilidades e competências

Por: Josaine Airoldi

Segunda-feira.

Amanhece.

Manhã gelada.

Tenho que levantar.

Penso e repenso nos prós e contras.

O telefone que está na sala toca.

Ignoro.

Ele toca novamente.

Não desistem.

Levanto após muito esforço. 

Não era nada de importante.

Poderia não ter atendido, mas atendi e para atendê-lo levantei; se me levantei vou ter que ir.  

Banheiro.

Escovar os dentes.

Banho

Toalha.

O que vestir?

Qualquer roupa que me mantenha aquecida.

Saio.

Percebo que está mais frio do que eu imaginava.

Chego.

Todos reunidos.

Tento não ser notada.

Sento sem fazer muito barulho.

Já basta chegar atrasada.

Não consigo me concentrar.

Preciso estar aqui?

Posso não estar?

Talvez.

Aqui estou: congelada.

Não sinto os meus pés.

Estão paralisados.

Escuto sem muita vontade.

O assunto do momento é: habilidades e competências.

Grupo.

Aceitação.

Diferenças.

Autossuficiência.

Autonomia.

Ao longo dos anos nessa profissão descobri que algumas coisas jamais irão mudar e que fazem parte do processo.

Descobri que se escrever, mesmo que bobagens o tempo passa mais rápido.

Então escrevo.

Escrevo para conseguir aguentar o frio congelante do mês de julho.

Escrevo sobre o quê?

Não é importante sobre o que escrever.

O importante é escrever.

Aprisionar os pensamentos que estão à solta na tentativa da manutenção da sanidade mental.

O tempo está passando mais rápido agora.

O frio está diminuindo, pois o sol está se impondo..

Continuo escrevendo: trechos da palestra.

Trechos de conversas paralelas ao meu redor.

Trechos de algumas constatações óbvias olhando tudo em volta.

Jamais vou conseguir realizar tudo o que deixei para trás.

Não vou ser popular na escola, embora eu ainda esteja na escola.

Não vou ser uma exímia dançarina.

Há coisa que se não acontecem no tempo que tem que acontecer nunca se tornarão reais.

Não vou ser uma boa cozinheira, simplesmente não gosto de cozinhar, embora acho esse ofício sublime.

Talvez, possa continuar sendo uma boa amiga, uma filha compreensiva, uma irmã presente, uma mãe carinhosa, uma esposa companheira, uma profesora eficiente…

Afinal, certas habilidades são para certas pessoas que têm certas competências ou vice-versa.

Para uma existência, talvez, basta.

21/ 07/ 2.019

Embruxada

Por: Josaine Airoldi

Minha irmã caçula herdou do meu pai os olhos azuis que tanto a minha mãe desejou durante a gravidez e também as crises de asma do meu avô.

Foi benzida por todas as curandeiras da cidade, inclusive minha avó que tinha o costume de “coser” os males de quem precisasse e pedisse.

Eram ensinadas inúmeras simpatias para curá-la.

Todas eram feitas a risca.

Nenhuma, até hoje, surtiu efeito.

Então, alguém sugeriu que a menina estava embruxada, por isso continuava tendo crises e não se curava.

– Como assim, embruxada? Havia uma bruxa entre nós? – Eu me questionava.

A conversa dos adultos continuava indiferente a minha expressão de medo e espanto, ouvindo tudo aquilo.

– Isso mesmo.

A bruxa é a primeira pessoa que vier aqui amanhã. – Explicou aquela que parecia entender bastante do assunto.

Era preciso que essa pessoa deixasse de ter contato com a criança para as crises acabassem.

Quase não dormir naquela noite.

Precisava conferir quem era a bruxa.

Será que seria igual as que apareciam em livros e filmes que passavam na televisão?

Qual não foi a surpresa de todos quando a tia Wilma chegou.

Não conseguia olhar para ela.

Não poderia ser ela.

– Como assim, embruxada? Havia uma bruxa entre nós? – Eu me questionava.

A conversa dos adultos continuava indiferente a minha expressão de medo e espanto, ouvindo tudo aquilo.

– Isso mesmo.

A bruxa é a primeira pessoa que vier aqui amanhã. – Explicou aquela que parecia entender bastante do assunto.

Era preciso que essa pessoa deixasse de ter contato com a criança para as crises acabassem.

Quase não dormir naquela noite.

Precisava conferir quem era a bruxa.

Será que seria igual as que apareciam em livros e filmes que passavam na televisão?

Qual não foi a surpresa de todos quando a tia Wilma chegou.

Não conseguia olhar para ela.

Não poderia ser ela.

Era muito engraçada, sempre nos fazia rir muito de qualquer coisa, além disso, nunca havíamos falar em bruxa loira.

Eu tinha certeza que a bruxa – aquela que estava causando todo o mal – era uma senhora muito feia e se assemelhava a uma criatura das trevas – que era muito amiga da família e frequentemente estava lá em casa, então porque não apareceu nesse dia?

Não me recordo com foi recebida por nós, mas todos que a conheceram guardam com carinho boas lembranças suas.

Não sei se a tia Wilma ficou sabendo que era uma bruxa, mas se soube, certamente, deu muitas gargalhadas.

16/05/2.020

Uma história puxa outra!

VER POST

https://lembrarparanaoesquecerinfo.data.blog/2021/01/24/o-ultimo-adeus/

Os tiradores de sangue

“Naquele tempo nossos medos eram outros.”

Por: Josaine Airoldi

Esqueça o homem do saco, o bicho papão, a mula sem cabeça e todas as formas de amedrontar às crianças, nenhum deles me provocava medo.

Eu receava ser atacada pelos tiradores de sangue.

Não se trata de vampiros, embora eles também não existam.

Não sei de quem eu tinha mais medo se da minha mãe ou se deles.

Na volta da escola era sempre a mesma coisa.

Se eu a seguisse, desobedeceria minha mãe.

Se eu não a seguisse ela os acionava.

Bravamente e solitariamente eu seguia pelo caminho indicado pela minha mãe enquanto ela chamava: Os tiradores de sangue.

Embora eles nunca tivessem aparecido, eu os temia.

Ela era assim sempre tinha uma brincadeira, uma história ou uma solução para tudo.

Uma das nossas brincadeiras consistia em brincávamos de “casinha” numa casa de verdade.

 A filha dela era sempre a minha irmã.

Era em quem dava banho, colocava bastante talco e após vesti-la com a sua melhor roupa, saíamos para passear.

Ela sempre com algum sapato ou sandália de salto alto da minha tia.

 Às vezes, eu era a professora; ela a mãe preocupada.

Certa vez quando veio buscar o boletim da filha eu seriamente usei uma expressão corriqueira o cotidiano escolar:

  – Sua filha passou raspando.

Começaram a rir sem parar.

Primeiro ela depois a filha que nunca tinha frequentado a escola e não fazia a menor ideia o que significava o que eu havia falado. Isso foi o que me dava mais raiva: o poder que tinha para influenciar as pessoas.

 Fiquei profundamente chateada, ora não era para brincar com a brincadeira.

Quando era na sua casa as brincadeiras eram outras.

Fazíamos orelhas de macaco – era para serem bolinhos fritos.

Atrapalhávamos o namoro da minha tia com um dos irmãos dela.

Como não tínhamos luz elétrica eles gostavam de namorarem no escuro ou tentarem pelo menos.

 Queimar papel higiênico sujo, certa vez quase incendiei a “patente” não havia banheiro.

 Quando brincávamos trocávamos de nome.

Tínhamos nossa amiga e vizinha imaginária: a Lita.

 Também, brigávamos muito, principalmente quando ela queria fazer aquilo que eu não podia fazer.

Eu sabia que na hora de ser responsabilizada era eu quem tinha que arcar com as consequências porque ela estaria longe.

Como éramos três, é claro que eu sobrava.

Às vezes o meu primo me defendia e batia nela com uma toalha de um modo que somente ele conseguia.

Nunca brigamos fisicamente, mas eu gostava quando ele se vingava dela por mim embora eu achasse exagerada atitude dele em relação ao que havia acontecido; porém era bom me sentir protegida.

Talvez seja por isso que ela usou seu olhar malicioso para insinuar que eu tinha feito algo com ele que não fiz.

Se eu soubesse que isso somente aconteceria dez anos depois e com outra pessoa não teria ficado tão magoada e não teria ficado quase um ano sem conseguir olhar para ela.

 Só voltei a conversar com ela depois depois.

 Com certeza, ela foi minha melhor e pior amiga de infância que eu tive.

                                                                                              27/ 11/ 2.010

Bodas de plástico

Por: Josaine Airoldi

Busco na memória lembranças nossas.

Hoje sei que deveria ter sido melhor contigo te deixando ir embora logo em seguida.

Fui egoísta te deixei entrar, um pouquinho, mas deixei.

Nunca te amei, perdão.

Nunca te respeitei, desculpas embora tarde sei que podes me compreender.

Nunca te quis realmente, não posso negar este fato.

Sei que estás bem.

Estás longe de mim e de minhas amarras egoístas.

Fiquei com algumas boas lembranças, é verdade: os CD da Legião Urbana com os quais sempre me presenteava em datas especiais.

Nossas tardes de domingo com sorvete e Martini.

E o amanhecer na praia…  

Nossos planos mais profundos foram aqueles que fizemos um ao outro numa noite qualquer enquanto estávamos num bar.

Nessa noite entre uma caipirinha e outra construímos um anel para comemorarmos nossas Bodas de Plástico.

Guardei o nosso símbolo até aquele domingo de sol forte em que finalmente te disse adeus para sempre.

Lamento, somente, que naquela tarde era teu aniversário.

07/08/2.010

Uma história puxa outra!

Aquele olhar

Doroteia

Por: Josaine Airoldi

Ela apareceu certo dia.

Chegou sem ser convidada.

Foi logo bem acolhida pela minha avó, que recebia bem a todos: os transeuntes que pediam abrigo, os que vendiam bugigangas, os que se ofereciam para ajudar no que fosse necessário em troca de algum prato de comida ou de alguns trocados…

Era alta, delgada, tinha o couro amarelado e o focinho fino, não sei de que raça, mas era bem diferente dos outros dois que tínhamos: o Macaco e o Leão.

Além deles tínhamos o Betinho, que como ela apareceu certa noite e foi ficando, se tornando o gato da família.

Doroteia – esse é o nome que demos a ela – tinha uma particularidade canina excepcional: somente atacava mulheres, com os homens era cordial e amistosa.

Doroteia era exímia em trazer panelas dos vizinhos para casa e também as levava. Tínhamos panelas sem tampas e tampas sem panelas.

Sentimos muito a falta dela quando percebemos que não voltaria mais.

Doroteia não era de se apegar.

20/11/2.010

Popularidade abaixo de zero

Por: Josaine Airoldi

Levanta a mão a menina que quis ser popular na escola!

Sempre quis ser popular.

Acho que toda menina deseja isso.

Foi o que sempre pensei.

Poderia ser qualquer coisa:

Ter algo para contar.

Ou para quem contar.

Ser a mais inteligente.

Qualquer coisa servia…

Ah! Mas tinha coleguinhas que eram bastante populares.

Ela era muito bonita e…

Havia o pedágio que ela cobrava das demais meninas da Escola para que pudessem usar o banheiro.

Qualquer coisa servia.

Quem não tinha como “pagar” passava por debaixo de suas pernas abertas.

Certa vez fui convidada para ir a sua casa após a aula. Nunca cheguei. Embora fosse perto, mas não foi porque era na direção contrária ao meu trajeto.

Estávamos indo, eu extremamente feliz por conseguir esse convite.

Quando…

Um carro para de repente. Um homem sai correndo. Junta desesperado um menino do chão coloca-o no carro. Sai em disparada. Então vemos outro menino completamente abalado, sem entender direito o que havia acontecido. Ficou assim o resto o ano ou da vida, não sei.

Às vezes, vejo essas imagens e me pergunto e se fosse em outro dia…

Na época e bem depois só tive uma amiga de infância.

Ela era muito popular.

Todos gostavam dela.

Exceto a sua família. Era adotada e parecia que tinha que pagar eternamente por ter sido acolhida, mas na minha família ela sempre tinha vez.

Certa vez encontrou um, penico.

Isso mesmo um penico no meio do lixo perto da escola onde estudávamos.

Não teve duvida. Lavou-o. Deixou secar e saiu com ele na cabeça. Todos riam de sua atitude.

Eu?

Estava com ela.

Minha quase xará…

Nunca me esqueci dela.Fez xixi na sala de aula.

Recordo dela em pé.

Apontando para o chão.

Virou assunto na escola.

Todos condenaram a professora Beatriz.

Afinal, ela tinha pedido para ira ao banheiro.

Por muito tempo foi assunto preferido da escola.

Ela era alta, rechonchuda e…

… A preferida dos que não levavam lanche.

Ela levava: quase meio quilo de pão caseiro:

– Minha mãe é quem faz! – dizia sempre, orgulhosa.

O pão em questão era recheado com salame e queijo, talvez margarina ou outra coisa qualquer.

O lanche era devorado com os olhos por muitos.

Repartia? Claro! Com os “irmãos.”

Não como os de verdade. Era filha única. Os irmãos eram dois colegas que a convenceram brincar que eram irmãos na hora do lanche e somente nesse momento. Então ela sorria um sorriso gordo.

Eu olhava aquilo não acreditando, como poderia ser tão burra de acreditar num história dessas. Parecia que o pão não tinha fim.

Eu os observava. Ela se comprazia em barganhar com eles. Não era o lanche que eu queria.

Ela…

…Tinha uma história triste da qual só recordo que morava com a madrinha numa casa muito bonita, perto da escola.

A madrinha lhe proporcionava tudo que uma garota naquela idade e naquela cidade poderia desejar.

Tinha todos os produtos que apareciam: “Os Menudos”.

Lembro-me também que sempre dizia:

– Máquina lava! – enquanto jogava futebol, descalças, usando nos pés apenas meias alvíssimas.

Eu nesse momento só pensava: será que ficarão novamente branquinhas essas meias…

Acho que isso não importava a ela.

Apenas, por alguns momentos e por razões completamente inusitadas, inesperadas ou não propositais fui o “centro” das atenções dos meus “coleguinhas” de escola.

Certa vez, o bilhete…

Era para a professora – raríssimos, mas esse existiu.

Velório em Porto Alegre.

Tenho que sair mais cedo.

Eu não iria ao velório.

Eu tinha que estar em casa para ajudar no quê, eu não recordo.

Também nunca compreendi o porquê do bilhete ter sido lido em voz alta. Enfim…

As meninas, todas, sentadas em volta de mim – eu recordo muito bem.

Queriam saber detalhes a respeito do velório de um primo que nunca conheci.

Tinha pouquíssima informação. Tinha que estar em casa mais cedo. Não tinha com responder a tantas perguntas. Lamentei por muito tempo.

Fui embora mais cedo desejando que aquele momento durasse para sempre.

Certa vez fui para a escola: vestida para arrasar…

A roupa era da minha tia, que resolveu brincar de boneca comigo.

Cheguei à escola.

As meninas ficam curiosas querendo saber onde tinha comprado.

Ainda atordoada e surpresa com tantas perguntas respondia meio débil a todas:

– Não é minha, é da minha tia.

Foi um momento estranho e mágico ao mesmo tempo.

Devolvi a ela agradecida por ter me proporcionado aquele momento em que todos os olhares se voltaram para mim ou para a roupa que estava vestindo, para mim não importava muito: fiquei popular na escola.

Ela, tempos depois deu a saia azul com bolsos e a blusa branca com detalhes coloridos para a minha irmã.

Sempre quis saber: por que não para mim?

30/ 06/ 2.010

Uma história puxa outra!

https://lembrarparanaoesquecerinfo.data.blog/2020/09/13/candidata-a-amiga/